João Alves de Melo(foto: Jornal A Gazeta da Região)
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Debaixo de uma frondosa árvore que existia no quintal da casa do Professor Paulo Ricoy de Camargo, em Nova Castilho, lá pelos idos de 1974 ou 1975, um grupo de músicos salgadenses animava uma festa de aniversário.
Eu, com uns 9 anos de idade, não conseguia desgrudar os olhos daquele grupo. Fascinado pelo som dos violões e pela harmonia das vozes, nasceu em mim naquele dia o desejo de aprender a tocar o instrumento.
Dentre os músicos um se destacava por dois motivos. O primeiro era a voz grave e retumbante e o outro, um estupendo domínio do instrumento demonstrado em solos e dedilhados perfeitos e envolventes. Seu nome era João de Melo. Os outros integrantes do grupo eram Márcio Teixeira, Fio e Ciridião Frota.
Os adolescentes da minha época cresceram ouvindo estes músicos e muitos foram seus alunos de violão. Anos depois seu irmão Natal de Melo abriu um bar na esquina da Avenida Antonino com a Rua Nadir Garcia (onde hoje se acha a videolocadora do Tiozinho). Todo final de tarde o boteco se enchia de gente para ouvir os dois irmãos cantando. Daí nasceu o projeto de gravarem o primeiro disco, o que aconteceu em 1981.
A primeira música do disco se chamava “50 dias de saudade” cujo refrão dizia: “Estamos separados há quase dois meses / são cinquenta dias de saudade e dor / por simples capricho a mandei embora / mas a vida agora não tem mais valor”. Para gravar o LP a dupla assumiu o nome de Divanei (Natal) e Deni Rey (João).
João fora, no entanto, um artista muito precoce. Com 14 anos dominava o violão e reuniu os amigos Djair Filó, Odair e Rui para formar um conjunto que animava festinhas pela cidade. O grupo se chamava Quarteto Vocalistas Som e tocava de tudo, do rock ao sertanejo. Aos 18 anos se apresentava nas rádios da região cantando os maiores sucessos da música sertaneja.
Apesar de ter gravado um segundo LP, a dupla Divanei e Deni Rey, infelizmente, não fez muito sucesso, pois naqueles tempos os métodos de divulgação de discos estavam muito atrelados ao domínio financeiro das grandes gravadoras. Muito diferente de hoje em que a internet e as rádios permitem maior acesso do público aos artistas independentes.
João continuou cantando em conjuntos de bailes, animando festas e conquistando fãs. Também era assíduo participante do coral da Igreja Nossa Senhora das Dores. Nesta altura, já tinha a companhia do filho Johnny, cujo talento ele mesmo lapidou. Alguns anos depois surgiu a oportunidade de cantar ao lado do grande Amaraí, da imortal dupla Belmonte e Amaraí. Gravaram um disco no qual João assumiu o nome de Montenei.
Quando Amaraí decidiu cantar com o filho Franco, João retomou a dupla com Natal e gravaram dois CDs, um deles com renda revertida em benefício do Hospital Bezerra de Menezes.
Aos 54 anos de idade, o mais talentoso dos músicos salgadenses nos deixou no dia 2 de setembro de 2009, depois de longo período de luta contra grave doença. Deixou a esposa Fátima, os filhos Johnny e Danila e duas netas: Bruna e Ana Júlia.
Seu desaparecimento precoce provocou intensa consternação nos inúmeros amigos que ele deixou, e que compareceram aos funerais para homenageá-lo. Ciridião, Márcio, Djair e Negão despediram-se do amigo lembrando as canções que ele mais gostava.
Ao receber a triste notícia não pude deixar de me lembrar daquele dia em Nova Castilho e ouvir novamente a sua voz cantando e me encantando: “Ouvindo o murmurar da cachoeira / das águas que desabam da pedreira / são as mais belas horas que existem em minha vida / ver a madrugada nascer florida”.
Obrigado João. Que Deus lhe guarde!