sexta-feira, 20 de junho de 2008

Na Era do Rádio

Sempre tive fascinação por rádio. Quando criança adorava os programas de música caipira das Rádios Record e Globo. Cada dupla tinha um dia da semana para se apresentar. Era tudo ao vivo.

Na rádio Record tinha o programa Sertanejo Classe A, apresentado pelos locutores Zé Russo e Zé Béttio. As duplas de sucesso se revezavam diariamente: Tião Carreiro e Pardinho, Tonico e Tinoco, Liu e Léu, Pedro Bento e Zé da Estrada, Zé Fortuna e Pitangueira.

O sanfoneiro Zé Béttio apresentava um programa de madrugada onde fazia de tudo para manter acordados os ouvintes gritando: olha a hora!. Isso pra não falar na barulheira de panelas que aprontava, mandando que a mulher desse um jeito no sono do marido: joga água nele!.

Vovó Arandira Marques tinha um grande rádio de pilha tipo capelinha, que ficava em cima do guarda-roupas. Um pequeno fio de cobre amarrado no telhado fazia vez de antena. Não havia luz elétrica, depois do jantar a gente se reunia na beira do rádio para ouvir música caipira. Bons tempos aqueles, principalmente porque ainda se podia ouvir boa música caipira no rádio. Hoje em dia a coisa se perdeu...

Assim que comecei a trabalhar, com doze, treze anos, juntei dinheiro para comprar o meu primeiro rádio portátil. Carregava o bichinho o dia inteiro para todo canto. De manhã ia para o trabalho ouvindo os programas matinais de notícias e música.

Na hora do almoço ouvia todos os programas esportivos possíveis, com predileção pelo Balancê da extinta Rádio Excelsior, apresentado pelo então jornalista esportivo Fausto Silva. Depois da escola, não dormia antes dos programas noturnos das Rádios Capital, Nacional, Globo, Bandeirantes.

Foi assim que aprendi a ouvir e gostar de Música Popular Brasileira, já que ainda não existia FM na região e as emissoras não estavam afundadas nesse esquema bandido de só tocar o que manda o dinheiro das grandes gravadoras.

Através de um radinho de pilha de ondas curtas, médias e longas ligado na cabeceira da minha cama descobri a música maravilhosa de Chico Buarque, Fagner, Zé Ramalho, Paulinho da Viola, Belchior, Beto Guedes, Milton Nascimento, Nara Leão, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Elis Regina, Alceu Valença; toda essa gente que sempre teimou em fazer, ainda que contra o estúpido sistema, música de boa qualidade neste país.

Nos finais de semana a gente grudava no radinho de pilha para ouvir jogos de futebol. Não havia transmissão televisiva e tínhamos que recorrer às narrativas dos locutores Osmar Santos, Fiori Gigliotti, Oscar Ulisses, Waldir Amaral e Jorge Cury, dentre outros. Mesmo quando os jogos eram transmitidos pela TV era mais emocionante assisti-los ouvindo a narração pelo rádio.

A nossa turma assistiu a todos os jogos da Copa do Mundo de 1982 na casa do Chiquinho Cervantes. Na estréia do Brasil, contra a Rússia, quando o atacante Éder fez o gol da vitória aos 44 minutos do segundo tempo, a comemoração foi tanta que eu joguei o rádio para cima e ele caiu no chão, espatifou-se. Tive que comprar outro para ouvir o resto da Copa.

Somente agora no início do século vinte e um foi que General Salgado recebeu sua primeira emissora de rádio, pelo esforço de salgadenses que admiro: Carlinhos Rodrigues e família. Poucos sabem, mas nas décadas de 70 e 80 tinha um serviço de alto-falantes instalado defronte a Igreja da Matriz.

Durante a semana funcionava tocando música e era comandado pelo Walter, antigo funcionário e depois dono da primeira loja de discos da cidade. Os populares encomendavam músicas, o serviço funcionava ao lado do Salão de Barbeiro do seu Kalú. Era comum durante o passeio noturno pela praça se ouvir de repente pelos alto-falantes:

- Esta música o moço de camisa verde e calça bege oferece para a garota de vestido vermelho, como prova de amor e carinho...

E seguia a música, invariavelmente cantada por Roberto Carlos...

O serviço também dava algumas notícias e divulgava utilidades públicas. Começava diariamente às seis da tarde e a abertura era um tema instrumental do conjunto Os Incríveis, chamado O Milionário. Norival Cabrera também foi um dos primeiros locutores.

O sistema de notícias se chamava Serpuba: Serviço de Publicidade Bandeirantes. Mas era popularmente tratado de Perturba. Nas tardes de domingo era ocupado pelos esportistas. Zé Frota, Raé de Moraes e alguns outros, apresentavam um programa com as notícias do futebol salgadense.

No início dos anos 80 a aparelhagem foi comprada por Petronil Martins e nas suas folgas o locutor Walter era substituído pelo Mauro Lúcio, filho do dono.

Possuidor de uma dicção ligeira e confusa e uma leitura precária, ninguém entendia o que ele dizia, pois as palavras saíam num jorro, amontoadas e distorcidas. Um dos programas era patrocinado pela Auto Elétrica Camarotto, de propriedade de Carlinhos Camarotto. E o Maurão sapecava:

- E agora as notiça do dia, num ofecimento da Auto Elétrica Gafanhoto...

Mas voltando ao sistema radiofônico, registra a história que a primeira transmissão radiofônica oficial no Brasil aconteceu no dia 7 de Setembro de 1922. Os primeiros aparelhos que surgiram no Brasil eram alimentados por bateria, ou seja, uma pilha de grande capacidade e que também era enorme. Nos anos 40 surgiu o chamado rabo quente. Era um rádio alimentado por tensão sem transformador. Após algumas horas de funcionamento o cordão de alimentação aquecia e daí o apelido.

Ouvi dizer que um antigo sitiante das bandas de São João do Iracema em visita à cidade, ao passar diante de uma loja e ouvir pela primeira vez a estranha caixinha falante animou-se em possuí-la.

Buscou uns cobres guardados no fundo do baú e voltou para casa muito animado, chamando a gurizada para ver de perto a novidade. Na loja fora orientado pelo vendedor de que se tratava de um aparelho movido à bateria, a cada trinta, quarenta dias, necessitava nova carga.

Pediu que o lojista deixasse o aparelho sintonizado numa emissora que só tocasse música caipira, pela qual tinha predileção. Chegava da roça com o sol amoitando no poente e, depois do banho, sentava-se diante da caixeta mágica para aguardar a janta e ouvir Tonico e Tinoco, um duplão que só cantava moda boa demais da conta!

Findo o programa dos artistas prediletos ele não se importava mais com o resto da programação, desligava o aparelho e se espichava no catre, onde a patroa já o aguardava. O rádio passou a ser parte de sua rotina diária, não conseguia mais viver sem ele. Não colocava a cabeça na paina do travesseiro sem antes ouvir Tonico e Tinoco.

Depois de um mês mais ou menos, as vozes que emanavam do aparelho começaram a falhar e sumir. De nada adiantava bulir naquele botãozinho de regulagem de altura. Girava o danado até o último furo e as vozes continuavam bruxuleantes, lá longe. Sem entender direito o que acontecia procurou socorro na loja onde comprara o aparelho.

- Deve ser a bateria - disse o vendedor - traga aqui o aparelho que a gente recarrega.

Atendendo a determinação do lojista, dias depois voltou ele trazendo a caixa falante e pedindo para que promovessem imediatamente a recarga do aparelho. Antes, porém, advertiu muito sério:

- Mas o senhor carrega só com moda do Tonico e Tinoco, não ponha moda dos outros que eu não gosto!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Memória 45 (Silvio R. do Val)

Silvio Ribeiro do Val Junior, Amatilde de Oliveira do Val, Lúcia do Val Moreira e Dr. João Rodrigues Moreira.

A professora Lúcia Ribeiro do Val chegou a General Salgado no início da década de 1940 e conheceu o Dr. João, primeiro médico do vilarejo que havia chegado em 1938. Anos depois os irmãos dela, Silvio Júnior e Plinio Ribeiro do Val também se instalaram na cidade, foram proprietários do Hotel São Luiz e do primeiro cinema. Em 1944, quando da transição de distrito para município, Plínio foi nomeado interventor pelo Governador Ademar de Barros.
Amatilde e Silvio Junior tiveram três filhos: Laércio, Edwaldo (casou-se com Lourdes Teixeira) e Marilena. Plinio casou-se com Anany e teve dois filhos: Albertina e Silvio Eduardo. Lúcia e João Rodrigues Moreira são pais de José Carlos Rodrigues Moreira (casado com Marilene) e João Rodrigues Moreira Filho (casado com Lúcia Elena Castilho).
(foto: Álbum de Marilena Ribeiro do Val)

O Poema do Uberaba

Mudei-me de General Salgado para Araçatuba em 1983 e de lá saí em 1998 com destino ao Mato Grosso do Sul. Durante todo esse tempo, porém, fiz questão de não me afastar da cidade, dos familiares e também dos inúmeros amigos salgadenses.

Por incrível que possa parecer, grande parte dos universitários de Araçatuba não costuma se entrosar bem com o pessoal da cidade. É que em faculdades como a Unesp, os estudantes vêm de todos os cantos do país e acabam formando seus grupinhos. Também porque até certo ponto, o pessoal de Araçatuba é segregador. Nunca tive problemas desse tipo, pois quando lá fui morar já conhecia muita gente e de lá saí muito mais conhecido, graças a Deus.

Durante certo tempo fiz parte de um grupo de amigos que foi exceção à regra universitária, talvez porque dele fazia parte a amiga Magali Melo, dona de uma pensão para estudantes. A gente armava umas festas por lá e, cedo ou tarde, o pessoal das faculdades ia aparecendo, se enturmando. Foi numa destas festas que conheci Jefferson Nomelini, conhecido como Uberaba, um mineiro ajeitado por demais, estudante de Veterinária.

Avistei-o pela primeira vez no meio de um grupo, declamando uns poemas caipiras. Achei estranho, incomum. Um sujeito magrelo, pálido e sorridente. No meio do poema ele se ajoelhava, segurava o chapéu contra o peito e se benzia. Pensei comigo: esse cara é doido ou é discípulo do salgadense Pedro Maron, que também vive dia e noite recitando seus poemas prediletos.

Depois me dei conta que era um tipo muito engraçado, amistoso e simpático. Além desses versos que os locutores de rodeio vivem gritando nos nossos ouvidos, também declamava poemas caipiras, nos quais incluía todos os gestos possíveis.

Acabamos até nos entrosando freqüentando diversas festas pela cidade. Nos intervalos das cantorias a gente soltava o Uberaba e suas poesias. Fiquei gostando muito daquela do chapéu no peito e das bendições, falava em beijo gostoso, em cheiro cheiroso, e assim por diante. Era tão boa que uma vez conseguimos fazê-lo declamar no microfone da Boate Calypso.

Um dia ele me cerca na rua, com aquele jeitão de mineiro:

- Ô CJ, conheci a tal de General Salgado. Mas que cidade boa demais da conta sô! Já me convidaram pra Festa do Peão e eu vou pra lá.

Acho que foi por intermédio de Sidney Zanatta Junior e Aline Neves que ele apareceu na cidade e adorou. Cumpriu a promessa e apareceu na Festa do Peão, onde, além de outros, eu o fiz recitar várias vezes o poema do Beijo Gostoso. Pra variar ele se enturmou e pelo que sei, voltou muitas vezes à terrinha.

Depois que saí de Araçatuba fiquei muito tempo sem notícias dele, até que o reencontrei pela internet e depois no site Orkut.

Logo nos meus primeiros dias de Chapadão do Sul, num fim de tarde, eu estava numa lanchonete tomando umas e remoendo as saudades de casa quando alguém ligou o som numa camionete estacionada em frente ao boteco. Levei um susto, alguém estava declamando o poema caipira do Uberaba.

Aí descobri que uma Banda de Campo Grande, o Grupo Tradição havia gravado o tal do Beijo Gostoso, cujo autor é Zé Capeta, um peão de comitivas de boiada que participou da novela Ana Raio e Zé Trovão, na extinta Rede Manchete. É lógico que eu pedi pra repetir umas duas vezes e depois comprei o CD para ouvir sempre.

Pois ainda hoje quando ouço, me lembro do Uberaba segurando o chapéu contra o peito, às quatro da matina, ajoelhado no meio da barraca Caipirama, na Festa do Peão de Salgado:

"Adespois de tanto amor, de tanto beijo gostoso,
De tanto cheiro cheiroso, nóis briguemo.
E briguemo como quem deve de brigá:

Cada um prum lado, prepara as mala,
Na despidida inté se xinguemo: te odeio, te desprezo,
Baba de cururu, mandinga de sapo seco.
Vancê vá pro Norte que eu vou pro Sul.
Nunca mais quero te ver.

Nunca mais quero te ver, nem pintada de carvão
Lá no fundinho do meu quintar.
E se contigo eu chegar a sonhá, acordo e faço trêis cruiz:
É cruiz, é cruiz, é cruiz!
O Brasí é muito grande, dá bem pra nóis separá.

Ela engoliu um saluço eu engoli bem uns quatro
E carquemo o pé no mato.
Passou-se um tanto de tempo que nem é bão recordá.

Ontem nós se cruzemo, nem tentemo se disfarçá.
Eu parti pra riba dela com o fogo aceso no oiá,
Ela me deu um arrocho, ah! se eu fosse um cabra froxo
Tava aqui em dois pedaço.

E foi tanto beijo gostoso, e foi tanto cheiro cheiroso
Que nóis inté se lembremo que o Brasí é pequeno,
Num dá pra nóis separá.”


Amigo Uberaba, apareça lá na terrinha pra gente colocar a prosa em dia!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Memória 44 (João Marques e família)

João Marques e família
Filho mais velho do pioneiro Hipólito Ludgero Marques, João nasceu em 30/08/1925 e foi a primeira criança batizada na Capela de São José, construída por Joaquim Castilho no vilarejo de Nova Castilho. Foi vereador e Vice-Prefeito. Casou-se com Maria Conceição Zoccal.
Na foto: João William, Carminha, Terezinha, Antonio Carlos e Vera.
Chicão, João, Maria e Lurdes. No colo de dona Maria está o Paulinho, filho de Sérgio Marques.
(foto: Álbum da Família Marques)

Briga de Vizinhos

Se existe uma coisa que eu não gosto nem de estar por perto se chama briga. Tenho especial aversão pelo fato de duas pessoas medirem esforços por coisa pouca.

Por minha iniciativa jamais troquei petelecos com ninguém. Na minha modestíssima opinião, a ignorância de qualquer um que provoque confusão com o emprego de força não vale o esforço físico desprendido em resposta.

No meu tempo de adolescente em General Salgado existia uma antiga pendenga entre os jovens salgadenses e auriflamenses. Ouvíamos com certa surpresa os relatos das brigas e confusões que envolviam os grupos rivais, tanto lá como cá.

Uma turma não podia colocar os pés na cidade vizinha que a confusão se armava. Em Auriflama existia uma determinada família cujos taludos, em número de quatro ou cinco, lideravam o bloco dos briguentos. Por aqui havia também um grupinho de pessoas que insistia em tirar eventuais diferenças no tapa.

A verdade é que nossa turma estava chegando naquela fase em que se divertir na cidade vizinha era uma possibilidade das mais atrativas, mas a antiga rixa nos punha medo. Os amigos um pouco mais velhos, vez por outra, relatavam as confusões e exibiam-nos arranhões e curativos decorrentes dos encontros com os auriflamenses.

No mais das vezes as brigas eram justificadas pelo fato de que uma turma visitava a cidade da outra para paquerar, tentar conquistar as mulheres, mas em muitos casos, bastava colocar o pé na cidade vizinha para provocar as reações, que redundavam em duas hipóteses básicas: ou fuga ou pega.

Acho que Wirlei Marques foi um dos salgadenses mais perseguidos em toda a história da rixa entre as duas cidades. Os vizinhos chegaram ao cúmulo de furar, à faca, os quatro pneus do seu carro, obrigando-o a fugir a pé rodovia abaixo. Não teve sossego em nenhum dos muitos anos em que namorou sua esposa, a auriflamense Solange Conde.

Do lado salgadense ainda havia outros que se envolveram nas contendas: Batata, Maninho, Pote Barnabé, William Zancaner, Chiquinho Cervantes, Grilão, Pereca e Lúcio Fernandes, Nenê do Prado, Marquinhos Secches, Dinoel Marques, e muitos outros.

Mas havia uma tônica geral no nosso grupo, a de que estávamos mais interessados na diversão e na amizade dos auriflamenses do que na troca de sopapos que marcava, até então, as relações entre as duas cidades. Eu, por exemplo, contava com o fato de ter muitos parentes por lá, pois a maioria dos meus tios do lado paterno se tornou auriflamense. Resolvemos arriscar.

Assim como existem hoje os nossos grupos de amigos oriundos dos blocos de carnavais – PB, Babilake, Toloko, Toquetô – em Auriflama havia dois grupos desse tipo: a Reba e a Renca. A Reba reunia os briguentos, enquanto o pessoal da Renca era mais sociável.

Naquela época (final dos anos 70) havia dois pontos de animação na cidade: o Clube Guarani e a Lanchonete Chacrilongo, ambos na Rua João Pacheco de Lima.

A Lanchonete quase na esquina do Banco Itaú, enquanto o Clube ficava um quarteirão depois da praça. Eram os pontos de reunião dos auriflamenses nas noites de sexta e sábado.

Começamos a freqüentar – com certo receio – os finais de semana da cidade vizinha, tentando estabelecer alguma amizade. A princípio foi tudo tranquilo, mas por conta do fato de que não tínhamos condução própria, dependíamos de carona dos mais velhos e éramos vistos na companhia destes, acabávamos sofrendo as mesmas retaliações a eles destinadas.

Estabeleceu-se a seguinte situação: tínhamos bom relacionamento com a turma da nossa idade, éramos convidados para as festinhas, brincadeiras dançantes e quando eles por aqui apareciam também eram bem recebidos. Mas os mais velhos nos olhavam com desconfiança e achavam que também merecíamos o tratamento dispensado aos demais.

A principal regra da nossa defesa era andar sempre em grupo o que costumava evitar os atritos, mas algumas situações fugiram ao nosso controle e nos vimos quase agredidos. Numa delas, eu e Nelson Seraphim Junior estávamos na Lanchonete Chacrilongo quando fomos cercados pelos briguentos da Reba, a agressão foi anunciada e a reação era praticamente impossível. Fomos salvos por José Luiz Matarézio, auriflamense de coragem, que se interpôs diante dos arrelientos e avisou:

- Eu conheço os meninos, ninguém vai bater neles!

De outra feita eu estava acompanhado do Gappa. Recém chegado da capital, menino criado em Diadema, os auriflamenses não faziam idéia do que o amigo Wilians de Castro era capaz. Estávamos no Clube Guarani, numa brincadeira dançante e a Reba lá estava defendendo seu território. Não estávamos preocupados com a possibilidade de confusão, queríamos diversão.

Encostamos ao balcão do barzinho pra tomar umas e animar a noite. Dinheiro curto, só dava para tomar umas duas doses de cachaça. O botequeiro tirou detrás do balcão uma garrafa arrolhada contendo um líquido cor-de-rosa, colocou duas doses, fechamos o cenho e encaramos a parada. Antes que a marvada fizesse efeito o Gappa tomou um pontapé no traseiro. Olhamos em volta e vimos que o caldo ia entornar. O companheiro me avisou, acusando o golpe:

- Um japonês chutou minha bunda!

Os outros amigos salgadenses foram saindo, ficamos nós dois encurralados no canto do balcão. Previ o pior e avisei: vamos levar porrada. Um dos mais valentões da Reba tomou a frente do grupo e partiu para o nosso lado, aproximou-se anunciando o linchamento. Nisso o Gappa foi tentando argumentar com o briguento, aproximou-se e sem que ninguém esperasse, deu-lhe uma tremenda cabeçada no meio da testa.

Aqui se faz necessário um parêntese para informar que algum tempo antes, por brincadeira, o Gappa havia dado uma cabeçada numa caixa dos Correios (daquela grande, de plástico, tida como inquebrantável) e ela se partira ao meio. Daí vocês imaginem o resultado na testa do auriflamense. Enquanto o brigão ensangüentado era auxiliado pelos demais, fugimos correndo pelos fundos do clube, pulando muros até alcançar a praça.

De alguma maneira, este fato contribuiu para serenar os ânimos, apesar de que o Gappa ficou muitos anos sem voltar à cidade. Continuei freqüentando Auriflama e nunca mais tive problemas. O fim dos conflitos deveu-se, em grande parte, à atitude dos amigos auriflamenses que fomos fazendo e que serviram para neutralizar a tensão existente. Freqüentávamos as festas deles e eles se sentiam à vontade para vir nas nossas.

Olivar Barbosa Junior, Félix Oliva (o saudoso amigo Perereca, que há anos subiu ao andar de cima num acidente automobilístico), Capacete, Xaxim, Fernando Veschi, Cascão, Rosa Oliva, Carla Garcia, os irmãos Marcelo, Marilis e Marisa Adorno; Estela, Agda, Adalgisa, os gêmeos Alexandre e Ricardo Silva, Miguel Tadeu (que reencontrei anos depois, Promotor de Justiça em Pereira Barreto), Cláudio Lima, Herminho, Garibaldi e Zé Luiz Matarézio, Du, Juliano, Beto Goiaba, foram alguns dos auriflamenses que contribuíram diretamente para que as brigas históricas com os salgadenses fossem deixadas de lado.

Alguns não mais residem por lá, mas a grande maioria ainda nos privilegia com sua amizade.

Mas se não fosse a cabeçada certeira do Gappa acho que ainda hoje estaríamos tendo problemas de relacionamento com os vizinhos.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Memória 43 (Miltinho e Antonio Branco)

1958 - Milton José Marques e Antonio Thomaz Marques (Antonio Branco)
Miltinho (filho caçula de Maria e José Luiz Marques Neto) casou-se com Maderlei dos Santos; Antonio (filho de Maria Thomaz e Geraldo Salustiano Marques) casou-se com Maria Gasques.
(foto: Álbum da Família Marques)

Dona Alivina

O Clube da Terceira Idade é, a meu ver, uma das entidades que mais devem ser prestigiadas pela sua função social, pela sua importância.

Faça uma visita ao Asilo de Idosos, passe um dia com aqueles velhinhos que necessitam ajuda diária para a grande maioria das atividades, e logo em seguida vá conhecer um dos bailes do Grupo da Terceira Idade.

Você vai perceber e sentir de cara a diferença. Talvez se o segundo existisse há mais tempo, não existiriam tantos idosos morando no primeiro.

Dona Alivina Silva, por exemplo, avó de minha amada Samanta, de quem já falei por aqui, é um dos mais interessantes exemplos. Aproxima-se dos oitenta e não perde um festejo do grupo.

Diz, ainda por cima, que enquanto outras amigas gastam tempo e dinheiro com remédios e mezinhas, ela usa o seu única e exclusivamente para a diversão, pois não necessita de nenhum tratamento médico. Dança, desfila, viaja e ainda trabalha.

Mas falando na animação dessa turma me vêm à mente algumas histórias protagonizadas por alguns dos seus componentes.

Em Nova Castilho – eu ainda menino – existia uma senhora bastante idosa, Dona Jerônima, que tinha mania de entendida, gostava de mostrar conhecimento. Mas não tinha boa capacidade para compreender e armazenar as palavras corretamente. Certo dia chamou a vizinha por cima do muro:

- Dona Maria, a senhora nem imagina o que aconteceu! O Zezinho, filho da Tonha sofreu um incidente, tá estacionado na Penitência Portuguesa de Rio Preto. Diz que tá em estado de conga.

O acidentado Zezinho, internado em estado comatoso no Hospital da Beneficência Portuguesa de São José do Rio Preto deve ter se salvado, mas o português da dona Jerônima...

Certo dia, no circo, alguém lhe corrigiu o uso da palavra palhaço, a quem ela se referia dizendo “paiaço”. Ao tomar conhecimento da pronúncia correta, passou a adotar a regra para todas as palavras com o mesmo encontro de vogais:

- Lá em casa tem um pé de golhaba que tá carregado!

Voltando à Dona Alivina, há alguns anos começou a manifestar problemas de audição: atendia ao telefone sem compreender nada do que diziam do outro lado; conversava com as pessoas coisas desconexas do tema enfocado.

As filhas - Adenir, Adenair e Aldair - decidiram que estava na hora de consultar um médico e, se necessário, adotar um daqueles aparelhos auditivos.

Com certa resistência lá foi Dona Alivina ao especialista. Depois dos exames e da verificação de grave deficiência auditiva o doutor decidiu fazer uns testes de uso do aparelho. Instalou a peça e orientou a paciente:

- Dona Alivina, a senhora está ouvindo melhor? Tá ouvindo alguma coisa diferente?

- Tô ouvindo bem, mas tá um zumbido na orelha! – respondeu.

O especialista retirou o aparelho, fez alguns ajustes e recolocou no lugar: E agora?

- Ainda tô ouvindo um barulhinho estranho, informou a paciente.

Novos ajustes e Dona Alivina ainda reclamava do chiado.

- Dona Alivina, me diga como é esse zumbido.

- É assim ó: zuuuuuuummmmmm...

O médico matutou um pouco, desligou o aparelho de ar condicionado e arriscou:

- Ainda continua o zumbido?

- Agora parou!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Memória 42 (Salgadenses em BH)

1967 - Salgadenses em Belo Horizonte (MG)
Salvador Almeida, Arlindo Rodrigues de Almeida, Domingos de Almeida, Zé do Braz, Álvaro Rodrigues Filho, (não identificado), João Assato, Arsenio Colombo, e o motorista da Kombi, também não identificado (sabe-se que era um perueiro residente no Córrego do Lambari).
Se identificar alguém, mande um e-mail pro nosso embornal.
(foto: Álbum do blogueiro)

Mineirada Boa

Cada um dos povos que formam esse nosso imenso Brasil tem lá suas características pessoais, suas origens e costumes, seus acentos e linguagens próprias.

O português falado na região Norte é diferente daquele adotado pelos sulistas; a fala encontrada no Centro-Oeste é muito diferente daquela praticada no Nordeste, e assim por diante.

O interior paulista então, é deveras diferenciado, agregou um pouco do modo de falar, pensar e agir de outras regiões do país. O modo de agir de cada povo acaba transmitido para seus descendentes, os costumes são ensinados e difundidos.

A exemplo de muitos outros salgadenses, descendo de mineiros e conservo comigo muito dos caracteres deste povo, especialmente aqueles referentes à cultura, à culinária, à música, ao modo de se comportar e falar. Sou um puro interiorano, caipira mesmo. Andei por muitos cantos, conheci muita coisa diferente, mas nunca abri mão destes predicados.

Em contrapartida, cresci ouvindo histórias da caipirice dos mineiros. Tanto do lado paterno quanto materno, meus ascendentes que deixaram o estado de Minas Gerais no início do século 20 para se aventurar por estas bandas paulistas, eram gente muito simples, vinda de regiões pobres e até inóspitas. Jogaram mulheres, crianças e badulaques dentro de carros de boi e tocaram adiante para os rumos da terra prometida.

Se aqui na terra dos bandeirantes a vida já era difícil, dura, trabalhosa, muito mais dificultosa era a situação deixada para trás lá nas Alterosas.

No início dos anos 60 tio Azenclever Almeida (que já nos deixou) voltou à terra mineira para se casar com Dulce, sua prima. Na caravana de salgadenses, além dos irmãos (papai e mamãe recém-casados) alguns amigos próximos, como Arsênio Colombo e João Assato.

Depois de conhecer a região deixada para trás por vovô Álvaro, vendo aquela gente sofrida com jeito de abandonada, enfim, analisando aquele fim-de-mundo, seu Domingos filosofou com o irmão Ademázio:

- Foi Deus quem tirou meu pai daqui!

Naquele tempo havia gente morando nas cercanias de cidades, que nunca tinha deixado o quintal do sítio sequer para conhecer o vilarejo, jamais tinha visto uma rua calçada.

Tio Azenclever contava que numa das vezes em que retornou a Igaratinga para rever os parentes, isso há mais de vinte anos, conheceu um mineiro dos mais caipiras possíveis, daqueles que se assustavam com o progresso e com as modernidades.

Um dia lhe ofereceram sorvete e ele se agradou por demais da novidade, resolveu comprar o confeito para levar aos parentes que moravam no sítio. Comprou uma meia dúzia de picolés, enfiou numa pequena capanga e guardou tudo num dos bolsos da baldrana (para quem não sabe, baldrana é uma manta de couro que se coloca por sobre o pelego e os arreios).

Deu mais umas voltas pela cidade e, horas depois resolveu ir embora, mostrar a novidade aos parentes. Antes de retomar a montaria foi conferir o bolso da baldrana.

Para seu susto encontrou apenas os palitos e, raciocinando a seu modo, comentou com alguns presentes:

- Mas menino de Vila é danado, arteiro demais da conta sô! Chuparam o meu sorvete e ainda deixaram o palito dentro da capanguinha...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Memória 41 (Salgadenses em Aparecida)

Anos 1960 - Salgadenses em Aparecida (SP)
Mauro Sérgio Castilho no colo do pai Wando Castilho, Avelino Santana, Ezequiel Santana e sua mulher Etelvina Santana, Jacira Santana, Lucia Helena Castilho, Arcidio Castilho, Wanda Castilho, Francisca Santana Morales e seu marido Benus Morales.
(foto: enviada por Miltinho Castilho)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A História do Noroeste Paulista - 2

Imagem Rara - São José do Rio Preto em 1909, quando possuía aproximadamente 100 imóveis e um pouco mais de 1.000 habitantes.

Por volta de 1800 a província de São Paulo contava com apenas 48 municípios, distribuídos ao longo da faixa litorânea e numa pequena parte do leste. O restante era praticamente constituído de terras devolutas.

As terras interioranas paulistas passaram a ser ocupadas a partir de 1850, primeiramente por criadores de gado vindos de Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso. Depois, por mineiros que fugiram da Guerra do Paraguai (1864-1870), preferindo correr os riscos da vida no sertão a sujeitar-se ao alistamento militar.

Em 1866, quando regressava da Retirada da Laguna (episódio da Guerra do Paraguai), o militar e escritor Alfredo D´Escragnolle de Taunay, futuro Visconde de Taunay, utilizou-se da única rota existente no interior paulista, que hoje corresponde ao traçado da Araraquarense.

No ano seguinte registrou no livro Viagens de Outrora, sua passagem pelo pequeno povoado que depois passou a chamar-se São José do Rio Preto.

“Pousamos, por causa da grande tormenta, na única casa do arraial coberta de telha, pertencente ao Sr. João Bernardino de Seixas Ribeiro. A povoação consta de meia dúzia de palhoças abandonadas, na ocasião do recrutamento, por todos os habitantes que, com exceção do subdelegado, que era o próprio recrutador, haviam fugido para as matas e pontos em que se tornasse possível a exigência do serviço de armas. Há uma igrejinha em construção, e cremos que por muitos anos fique neste estado, quando não se arruíne totalmente”.

A partir de 1900, com aberturas de novas e imensas fazendas de café chegaram os imigrantes estrangeiros. Assim se deu a ocupação do interior paulista.

A vasta região localizada no sentido do oeste paulista era totalmente desabitada até 1800. Era um latifúndio que compreendia quase metade do território do Estado, sem qualquer traço de civilização. Em 1850 o interior paulista servia apenas de passagem para o gado criado no Mato Grosso, com destino a Minas Gerais e depois às populações litorâneas e principalmente aos grandes centros urbanos do sudeste do país. Não havia ligação entre São Paulo e Cuiabá.

Em 1892 o Coronel Carlos Ferreira de Castro, o Capitão José Maria e o Padre Ferraz, vigário da Vila de Santana do Paranaíba, no Mato Grosso, fizeram o trajeto do Rio São José dos Dourados (em São Paulo) e chegaram a Viradouro, ultimo reduto povoado ao norte de São José do Rio Preto.

Lá organizaram um grupo de foiceiros e machadeiros para abrir uma trilha pelo mato, que chegou à barranca do Rio Paraná. Por esta trilha passaram as primeiras boiadas vindas do Mato Grosso para São Paulo e Minas Gerais.

Do Porto do Tabuado (Rio Paraná) o trajeto seguia paralelamente orientando-se pelo curso natural do Rio José dos Dourados até São José do Rio Preto. Para chegar a Barretos passava por sobre o Rio Turvo, para alcançar Uberaba e Uberlândia, em Minas Gerais, cruzava o Rio Grande. Às margens da Estrada surgiram fazendas de criação de gado, o que fez aumentar o povoamento da região.

A Estrada Boiadeira era a ligação da região matogrossense criadora de gado aos importantes entrepostos, com intensas atividades na pecuária, abate e comercialização de carne, cuja produção demandava ao consumo das populações das principais cidades do sudeste brasileiro.

O escritor Euclides da Cunha (1866-1909), autor da grande obra Os Sertões, visitou a região e fez um importante e profético registro:

“A Estrada Boiadeira é a mais importante do Brasil. Tem um caráter continental tão frisante que em pouco tempo duplicará a vitalidade nacional”.

Com o advento da cafeicultura, as boiadeiras viriam ainda servir para que a produção cafeeira chegasse às cidades chamadas pontas de trilhos. Outra trilha, no lado mineiro, ligava Santana do Paranaíba (Mato Grosso) a Uberaba (Minas Gerais), sobrepondo o rio Paranaíba, através do Porto Alencastro.

Em 1894 São José do Rio Preto possuía menos de 100 imóveis e cerca de 1.000 habitantes. Seu território compreendia imensa área de terras que confrontava: a Oeste – Rio Paraná; ao Sul – Rio Tietê; a Leste – Rio Turvo; e ao Norte – Rio Grande.

Entre 1900 e 1950 o território paulista passou a ser efetivamente ocupado, contribuindo para isto não só as riquezas que seriam obtidas com o café, mas principalmente pela conclamação na ocupação do interior do país, denominada Marcha para Oeste, promovida por Getúlio Vargas nas décadas de 30 a 50.

Primeira Estação Ferroviária de Araçatuba, construída por volta de 1908. A cidade foi construída no entorno da Estação.

Em 1911, o Governo do Estado começou demarcar as terras devolutas no interior, aliviando o processo de ocupação territorial, facilitando a compra e venda, a regularização de posses, fixando critérios para os negócios e as relações sobre a terra.

Este ato contribuiu para evitar as especulações e grilagens, para estimular as relações de trabalho, com o surgimento das figuras do proprietário, do arrendatário, do meeiro, do empreiteiro e do colonato. Eliminaram-se assim os conflitos de posseiros que expulsavam os índios e a indústria da posse.

As Comissões de Demarcação nomeadas pelo governo paulista adentraram o interior demarcando ou discriminando terras do Estado e terras particulares, estipulando prazo para que os ocupantes comprovassem a posse por pelo menos 5 anos, a existência de áreas de cultivo e o uso do local para moradia familiar.

Os possuidores de imóveis rurais que demonstraram o preenchimento destes requisitos se tornaram proprietários definitivos das terras, com a homologação do Governo do Estado.

As comissões que mapearam a região existente entre Bauru e São José do Rio Preto eram chefiadas pelo Engenheiro Gregório Mascarenhas. A demarcação conferiu valor de mercado às terras, mas também obrigou os proprietários ao recolhimento de impostos.

A região da Alta Araraquarense, nos territórios onde surgiriam os municípios de Votuporanga, Fernandópolis, Jales e Santa Fé do Sul, tinha muitos problemas de grilagens, terras estas encravadas entre as margens dos rios Grande, ao norte, São José dos Dourados, ao sul, e Paraná, a oeste.

Demarcadas constituíram doze fazendas e algumas glebas: Marimbondo, Ranchão, Iagora, São Pedro, Voador, Prata, Marinheiro, Pádua Diniz, Água Vermelha, Santa Rita e Ponte Pensa.

A Estrada Boiadeira cortava estas fazendas e ficou sendo a via de acesso para os sertanejos vencerem as inóspitas florestas, plantarem as cidades e povoarem a região, facilitando as relações comerciais entre Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Na região mais próxima da margem do Rio Tietê surgiram as glebas nomeadas de Fazenda Talhados, Fazenda Carrilho e Fazenda Limoeiro

Habitação típica dos pioneiros da região Noroeste Paulista, casas de pau-a-pique abertas em meio ao extenso matagal.

Nestas imensas fazendas surgiram povoados, vilas, novas cidades e novos municípios, impulsionados pela expansão da cafeicultura, atividade econômica que, atrelada à imigração italiana, levou à expansão das estradas ferroviárias para transporte da produção.

Estrada Boiadeira do Taboado - Imagem atual, colhida por Evandro Ferreira, descendente de salgadenses residentes em Nova Castilho, turismólogo e encarregado do setor de Museus e Patrimônios Históricos de Votuporanga (SP), cujo importante levantamento sobre a Estrada do Taboado pode ser conferido AQUI, e que gentilmente contribuiu para as nossas pesquisas sobre o tema.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Memória 40 (Márcio Teixeira e João de Mello)

1975 - Márcio Teixeira da Rocha e João de Mello, dois dos mais renomados músicos salgadenses de todos os tempos. Márcio também foi destaque como professor de violão e treinador de futebol das categorias de base.
(foto: enviada por Ivone Fantini)

Casados x Descasados

Com quatorze anos de idade eu trabalhava no Cartório de Registro Civil de General Salgado, então comandado pelo Escrivão Hésio Rodrigues de Carvalho.

Seu Hésio era uma figura ímpar, um senhor com mais de 60 anos muito elegante e alinhado, cabelos grisalhos bem penteados, sapatos engraxados, guarda-chuvas no braço. Quando adentrava os corredores forenses o pessoal nem precisava vê-lo para saber de sua chegada, pois sua passagem ia sendo revelada pelo perfume que dele recendia. Por isso era carinhosamente chamado pelos colegas de Cheiroso.

O cartório funcionava aos sábados por causa dos casamentos civis que eram realizados. Como eu havia aprendido todo o funcionamento do cartório, seu Hésio (em conluio com o juiz de paz Melentino Cardoso) decidiu me ensinar a celebrar os casamentos. Escreveu o palavreado numa folha e fui eu ajudar seu Melentino.

Da primeira vez as pernas tremiam, a voz ameaçava falhar. Semanas depois eu nem precisava do papelote, tinha decorado tudo.

Por quase cinco anos ajudei a sacramentar o enlace de muitos salgadenses. Seu Melentino fazia algumas perguntas básicas sobre livre e espontânea vontade e em seguida declarava que a partir daquele instante o casal era marido e mulher. Aí entrava eu sapecando o texto decorado com o acréscimo dos dados sobre os nubentes, filiação, naturalidade, essas coisas.

A gente adorava quando o casal pedia para fazermos o casamento fora do cartório, ou seja, no local da festa, pois acabávamos pegando carona no evento. Na zona rural era mais gostoso, casamento de fazenda não acontecia sem aquela churrascada.

Ao final de cada casamento, depois que os noivos e os padrinhos assinavam o termo, seu Melentino entregava a certidão de casamento e repetia os votos de felicidades, no final acrescentava uns conselhos:

- Juízo, meus filhos!

Um casal de sitiantes de Nova Palmira, convivendo há mais de quarenta anos resolveu regularizar a situação dos filhos com o casamento civil. Os dois tinham ultrapassado os 60 e, ao final da cerimônia o juiz de paz nem se deu conta. Repetiu o mesmo palavreado, recomendando juízo aos contraentes.

Seu Melentino conta que há muitos anos, no tempo em que o sujeito era obrigado a casar para salvar a honra da moça desvirginada, um pai prestou queixa na Polícia dizendo que a filha havia sido desonrada e o autor do fato se negava ao casamento.

Forçado pelo Delegado de Polícia o cidadão não teve outra saída, aceitou o matrimônio. Para impedir alguma surpresa o delegado determinou a um Sargento que acompanhasse a cerimônia. Na hora do casamento o juiz de paz perguntou ao noivo se ele aceitava a noiva, e se o fazia espontaneamente. O rapaz coçou a cabeça, olhou para o lado e se assustou com a cara séria do miliciano. O jeito foi concordar:

- Já que é assim que o Sargento quer, eu aceito!

Anos depois, como advogado, me vi atuando do outro lado da situação. Ao invés de sacramentar a união dos casais passei a formalizar suas separações.

Talvez por conta do fato de ter vivido aquela experiência, convivido por muito tempo com a felicidade que os casais demonstram na hora do casamento, não sei atender a um casal que pretende se separar sem fazer uma – ainda que pequena – tentativa de reconciliá-los. Mesmo que o sucesso da empreitada, no caso, possa redundar em deixar de fazer o serviço e conseqüentemente não receber honorários.

Em mais de vinte anos de advocacia tive a oportunidade de divorciar até mesmo casais que eu, ainda garoto de tudo, havia ajudado a casar ao lado de seu Melentino.

Depois que a Constituição Federal passou a considerar a união estável como entidade familiar, voltei a unir casais através de ações que visam o reconhecimento da convivência e a preservação de direitos. Atualmente está em moda o contrato de namoro, pessoas divorciadas e proprietárias de bens, que começam a namorar outras na mesma situação buscam precaução através desses contratos, a fim de que o namoro não seja confundido com a união estável. Para isso solicitam a lavratura de um pacto dizendo que a união é um simples namoro e que, ao final dela, ninguém ficará devendo nada para ninguém.

Eu acredito na união das pessoas independentemente das formalidades. Depende do que elas esperam da união, pois, a forma com que foi sacramentada não é capaz de tornar a convivência mais ou menos sólida.

São outros os fatores responsáveis pela segurança ou pela fragilidade do relacionamento, dentre eles o respeito, a consideração, a amizade, o companheirismo e, logicamente, o amor. Enfim, acredito que o casamento (ou a convivência marital) é um estado de espírito.

Mas quando o casal resolve se separar a grande maioria dá mostras claras de que perdeu tudo isso, foi-se o respeito, a consideração, e os dois brigam até por causa de panela.

Conheço um salgadense casado há muitos anos com a mesma mulher, filhos adultos, que diz ter atravessado algumas crises de relacionamento com a esposa, chegando a falar em separação.

Apesar dos desentendimentos o casal se mostrava pacífico, mantendo, pelo menos, a amizade e a consideração. O marido disse à mulher que caso a decisão fosse pela separação ele sairia de casa, ela ficaria com os filhos, os móveis, a casa, ele pagaria a pensão e visitaria os filhos na medida do possível. Fez uma única restrição:

- Eu só quero o nosso colchão! Você pode ficar com o todo o resto. Eu só quero colocar o colchão no meio da rua e botar fogo!

A mulher não entendeu nada. Para quê o marido pretendia levar de casa apenas um velho colchão. Insistiu até que ele se explicou:

- A gente vai se separar, você vai tocar sua vida e eu a minha. Daqui a algum tempo você se casa de novo, eu não me oponho, tudo fica bem! Eu só não quero saber de outro sujeito fazendo festa em cima do meu colchão!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Memória 39 (João Berto)


João Norberto e Benta Faria Marques - filho do pioneiro Norberto Luiz Marques. O casal teve cinco filhos: Alcino (casou-se com Elvani Franco), Arcilio (Odete Rosa), José João (Maria Neves), Dalira (Elson Mian) e Elena (João Cândido Pereira).
(foto: Álbum da Família Marques)

Carta Aberta a Um Amigo Salgadense

Chapadão do Sul (MS), maio de 2002.

Estimado amigo,

Tenho revolvido com afinco um velho baú de guardados a fim de contar neste canto aqui na grande rede, um pouco de tudo o que vi, vivi e conheci da nossa querida General Salgado.

Lembrei-me de algumas coisas que se passaram na minha infância em Nova Castilho, dos amigos que fiz quando me mudei para a sede do município, do nosso grupo de adolescentes, das peladas pelos campinhos esburacados, escolas e professores, serenatas e noites de cantoria.

Em todas as vezes que remexia o interior do baú de recordações para buscar um fato, uma história, um personagem, por entre os guardados eu te via, sentia tua presença e tua importância em minha vida, sabendo que um dia eu teria que falar de ti. Em cada uma destas oportunidades em que vislumbrei tua presença ali em meio às minhas melhores lembranças, me certifiquei – com vívida satisfação - que ainda guardo por ti o mesmo respeito, o mesmo carinho e uma admiração perene.

Sei que tudo o que devo, quero e tenho que te dizer, poderia ter sido dito há muito tempo atrás. Mas o tempo - Ah! o tempo - vive nos espremendo, nos compelindo, adiando, postergando encontros, visitas, abraços, conversas, confissões, ao mesmo tempo em que nos vai mitigando o entusiasmo daqueles tempos em que a juventude a tudo comandava, incentivava, incitava.

Hoje eu te compreendo, velho amigo, e sei que você nos contou uma história fantasiosa, fazendo com que acreditássemos que ia nos fazer jogadores de futebol. Mas os teus planos, o teu intento e a tua missão estavam muito distantes disso. Você não queria que jogássemos futebol, apenas nos fez acreditar nisso.

E nós acreditamos em ti com a fé da adolescência, com a certeza de quem tem toda uma vida pela frente, a confiança de quem não teme os erros, as vicissitudes, as incertezas, e até mesmo, as inconseqüências.

Pulávamos das camas às 5 da matina para ir treinar lá no velho estádio Paulo Possetti. Alguns, como eu, depois de correr duas horas inteiras – parte delas dedicadas à educação física – mesmo nas manhãs de inverno, às 8 em ponto pegavam no batente. Havia dias em que retornávamos às 5 da tarde para repetir toda a faina.

Tanto acreditamos em ti que entrávamos em campo e lutávamos com denodo para defender o grupo e nome da cidade. E não foram poucas as vitórias, não eram insignificantes os adversários e muitas foram as vezes em que voltamos para casa mostrando nossa felicidade pelas ruas da cidade, gritando a plenos pulmões o placar do jogo para aqueles que nos aguardavam. Na nossa crença juvenil não fomos capazes de perceber que os teus planos a nosso respeito eram outros.

Há uma cena entre nós que precisa ser revivida. Voltávamos de um jogo nas cercanias, o velho Tartarugão balançava pela rodovia e alguns amigos começaram a tocar a campainha do ônibus, puxando o fio que os passageiros normalmente usam para pedir parada. Você, como sempre, deu as primeiras broncas sem identificar o autor da travessura.

Não sei por que motivo, já que eu nunca fui de quebrar a disciplina do grupo, resolvi entrar na brincadeira e puxar o cordão, aproveitando um momento de tua distração. Você insistiu na repreensão e me perguntou sério: “Quem foi?”. Naquele instante, sem resistir ao teu olhar inquisitivo eu me acusei. Não fui capaz de ocultar de ti a traquinice e esperei o merecido castigo.

Mas por detrás do teu olhar de repreensão você deixou aparecer um sorriso denunciando nossa proximidade, nossa cumplicidade. O teu sorriso foi capaz de premiar a minha sinceridade e ao mesmo tempo punir a minha impertinência.

Sinto dizer, meu amigo, que os teus planos futebolísticos redundaram em fracasso. Ninguém daquele time alcançou o estrelato com a bola nos pés, ninguém envergou outra camisa senão aquela azul e branca do nosso Grêmio Desportivo Salgadense. E nós, num arroubo de egoísmo, acabamos creditando a você o nosso insucesso. Num repente passamos a crer que teus métodos não estavam aptos a conduzir nossos planos de profissionalização e estrelato.

E por conta da nossa crença estúpida e insensata, própria dos açodados, dos despreparados, dos que acreditam que tudo sabem, que tudo podem, acabamos te magoando. A minha larga parcela de responsabilidade, sabe você, assumi na tua presença, do mesmo modo como me denunciei no dia em que toquei aquela campainha. Era o mínimo que eu poderia fazer naquele tempo, apesar de não ter bastado para me eximir, para expiar minha equivocada e culposa posição.

Hoje venho te pedir perdão. Desculpe-me o atraso de “apenas” vinte anos, mas ainda que fossem quarenta eu teria que fazê-lo. Nesses vinte anos nos encontramos algumas vezes, conversamos um pouco e posso acreditar que o tempo – que tudo supera e cicatriza – tenha sedimentado o turbilhão de sentimentos que te atingiu. Muitas foram as vezes em que busquei com os velhos amigos notícias tuas, e creias, saber-te bem sempre me serviu de acalento ao coração.

Como fomos inocentes meu amigo! Como nos deixamos iludir! Confiamos cegamente que você nos queria craques de bola, e não fomos capazes de perceber que o que você realmente pretendia era nos transformar em homens!

E você não se poupou de oportunidades, não economizou entusiasmo, seja nas vezes em que deixou o convívio dos teus para nos acompanhar; nas vezes em que tirou dinheiro do bolso para socorrer aqueles mais necessitados; nas vezes em que sacrificou o horário do teu trabalho diário em nosso benefício; nas vezes em que, para reunir o grupo, fortalecer amizades e companheirismo, varamos noites em longas conversas de esclarecimento e orientação, você sempre nos oferecendo teu ombro amigo, tua experiência de vida, teus ouvidos plenos de compreensão. Com muitos, você ainda dividia o aconchego da tua casa, a comida da tua mesa, a compreensão de tua família, a alegria do teu violão.

Em todas essas oportunidades você jamais demonstrou cansaço, incompreensão, jamais deixou de dar socorro às nossas inquietações. Em contrapartida nos cobrava apenas comportamento, atitude, disciplina, personalidade, tentando harmonizar nossa convivência em grupo e ao mesmo tempo fortalecer nossas vidas em família.

Nossos pais sempre foram e sempre serão para nós referências básicas, jamais esqueceremos, jamais desprezaremos tudo o que deles recebemos, tudo o que com eles aprendemos. Mas houve vezes em que eles não estavam por perto, houve vezes em que eles eram os motivos das nossas inquietações, houve vezes em que não tivemos coragem, oportunidade ou liberdade suficiente para nos abrirmos com eles. Nessas horas, amigo, você estava conosco e nunca negou uma palavra amiga, um conselho, um conforto, uma orientação. Nunca deixou de nos ouvir e de dar sua contribuição para o nosso crescimento, para o nosso amadurecimento.

Cá comigo creio que carregas íntima convicção do quanto foi grande e importante o resultado do teu intento. Ouso acreditar piamente que tens consciência de que tua missão se preencheu de êxito, de sucesso e de concretização. Ainda assim vou te dar alguns exemplos:

- aquele goleiro metido a elegante, que fazia questão de comprar – a duras penas – seu próprio uniforme, mas que negaceava quando era necessário contribuir para o time, mais por dificuldades financeiras do que por sovinice, hoje é um homem assentado na vida. Superou obstáculos, constituiu família, alcançou o respeito de seus pares;

- aquele centroavante cabeçudo que às vezes treinava com os pés descalços porque não tinha dinheiro para comprar chuteiras, hoje é próspero empresário, cresceu na vida honestamente, com trabalho árduo e honrado; é motivo de orgulho para todos nós que conhecemos das dificuldades que enfrentou, que partilhamos com ele alegrias, tristezas e esperanças;

- um outro atacante polivalente que de vez em quando vestia a camisa de titular, aquele, que sempre dava show jogando pelos aspirantes, hoje é homem feito, tem família, filhos, e quando deixa o Estado onde vive para vir visitar os amigos e familiares salgadenses, e por aqui desfila ao volante de um carrão reluzente, nós que sabemos o quanto foi dura a sua caminhada sentimos que a vida sabe premiar os que lutam, os que buscam trilhar o caminho dos justos.

Eu poderia falar de todos os demais companheiros e em todos eles há um motivo de orgulho, uma vitória a ser anunciada, um caminho trilhado com dedicação e premiado de êxito. Alguns talvez não tenham alcançado plena independência financeira, mas te garanto que todos se tornaram homens de bem.

Tenha certeza, meu amigo, que em todos eles influenciou positivamente a tua palavra sincera e cordata, teu apoio, tua orientação mesmo que em forma de censura, e ainda que você nos tenha vendido a ilusão de que estavas mais preocupado com o nosso futebol. Não há um de nós que não te guarde carinho e consideração, que não se sinta agradecido. Ninguém jamais esquecerá o que fizestes.

Por tudo isso é preciso te dizer muito obrigado, amigo Márcio Teixeira da Rocha, e o faço aqui com redobrada saudade e renovada esperança de que tenhamos ainda um dia oportunidade de reviver e revolver aqueles dias de aprendizado, de amizade e crescimento, em que você nos doou grande parte do seu coração imenso, justo, caloroso e fraterno.

Tenha certeza que você colherá os merecidos frutos do que plantou, se é que isso ainda não aconteceu. Eu ficaria muito feliz se soubesse que as gerações que nos sucederam tiveram (ou terão) as mesmas oportunidades que tivemos, de pelo menos, conviver e aprender sobre a vida com uma pessoa como você.

Jamais deixarás de ocupar um lugar especial no meu baú de guardados, esse baú que trago seguro e preservado aqui dentro do peito.

Dê lembranças minhas à Sueli e às crianças (que já não devem ser tão crianças assim!).

Que Deus te abençoe.

Um forte abraço do eternamente agradecido amigo Carlos José.