sexta-feira, 16 de maio de 2008

A História do Noroeste Paulista - 2

Imagem Rara - São José do Rio Preto em 1909, quando possuía aproximadamente 100 imóveis e um pouco mais de 1.000 habitantes.

Por volta de 1800 a província de São Paulo contava com apenas 48 municípios, distribuídos ao longo da faixa litorânea e numa pequena parte do leste. O restante era praticamente constituído de terras devolutas.

As terras interioranas paulistas passaram a ser ocupadas a partir de 1850, primeiramente por criadores de gado vindos de Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso. Depois, por mineiros que fugiram da Guerra do Paraguai (1864-1870), preferindo correr os riscos da vida no sertão a sujeitar-se ao alistamento militar.

Em 1866, quando regressava da Retirada da Laguna (episódio da Guerra do Paraguai), o militar e escritor Alfredo D´Escragnolle de Taunay, futuro Visconde de Taunay, utilizou-se da única rota existente no interior paulista, que hoje corresponde ao traçado da Araraquarense.

No ano seguinte registrou no livro Viagens de Outrora, sua passagem pelo pequeno povoado que depois passou a chamar-se São José do Rio Preto.

“Pousamos, por causa da grande tormenta, na única casa do arraial coberta de telha, pertencente ao Sr. João Bernardino de Seixas Ribeiro. A povoação consta de meia dúzia de palhoças abandonadas, na ocasião do recrutamento, por todos os habitantes que, com exceção do subdelegado, que era o próprio recrutador, haviam fugido para as matas e pontos em que se tornasse possível a exigência do serviço de armas. Há uma igrejinha em construção, e cremos que por muitos anos fique neste estado, quando não se arruíne totalmente”.

A partir de 1900, com aberturas de novas e imensas fazendas de café chegaram os imigrantes estrangeiros. Assim se deu a ocupação do interior paulista.

A vasta região localizada no sentido do oeste paulista era totalmente desabitada até 1800. Era um latifúndio que compreendia quase metade do território do Estado, sem qualquer traço de civilização. Em 1850 o interior paulista servia apenas de passagem para o gado criado no Mato Grosso, com destino a Minas Gerais e depois às populações litorâneas e principalmente aos grandes centros urbanos do sudeste do país. Não havia ligação entre São Paulo e Cuiabá.

Em 1892 o Coronel Carlos Ferreira de Castro, o Capitão José Maria e o Padre Ferraz, vigário da Vila de Santana do Paranaíba, no Mato Grosso, fizeram o trajeto do Rio São José dos Dourados (em São Paulo) e chegaram a Viradouro, ultimo reduto povoado ao norte de São José do Rio Preto.

Lá organizaram um grupo de foiceiros e machadeiros para abrir uma trilha pelo mato, que chegou à barranca do Rio Paraná. Por esta trilha passaram as primeiras boiadas vindas do Mato Grosso para São Paulo e Minas Gerais.

Do Porto do Tabuado (Rio Paraná) o trajeto seguia paralelamente orientando-se pelo curso natural do Rio José dos Dourados até São José do Rio Preto. Para chegar a Barretos passava por sobre o Rio Turvo, para alcançar Uberaba e Uberlândia, em Minas Gerais, cruzava o Rio Grande. Às margens da Estrada surgiram fazendas de criação de gado, o que fez aumentar o povoamento da região.

A Estrada Boiadeira era a ligação da região matogrossense criadora de gado aos importantes entrepostos, com intensas atividades na pecuária, abate e comercialização de carne, cuja produção demandava ao consumo das populações das principais cidades do sudeste brasileiro.

O escritor Euclides da Cunha (1866-1909), autor da grande obra Os Sertões, visitou a região e fez um importante e profético registro:

“A Estrada Boiadeira é a mais importante do Brasil. Tem um caráter continental tão frisante que em pouco tempo duplicará a vitalidade nacional”.

Com o advento da cafeicultura, as boiadeiras viriam ainda servir para que a produção cafeeira chegasse às cidades chamadas pontas de trilhos. Outra trilha, no lado mineiro, ligava Santana do Paranaíba (Mato Grosso) a Uberaba (Minas Gerais), sobrepondo o rio Paranaíba, através do Porto Alencastro.

Em 1894 São José do Rio Preto possuía menos de 100 imóveis e cerca de 1.000 habitantes. Seu território compreendia imensa área de terras que confrontava: a Oeste – Rio Paraná; ao Sul – Rio Tietê; a Leste – Rio Turvo; e ao Norte – Rio Grande.

Entre 1900 e 1950 o território paulista passou a ser efetivamente ocupado, contribuindo para isto não só as riquezas que seriam obtidas com o café, mas principalmente pela conclamação na ocupação do interior do país, denominada Marcha para Oeste, promovida por Getúlio Vargas nas décadas de 30 a 50.

Primeira Estação Ferroviária de Araçatuba, construída por volta de 1908. A cidade foi construída no entorno da Estação.

Em 1911, o Governo do Estado começou demarcar as terras devolutas no interior, aliviando o processo de ocupação territorial, facilitando a compra e venda, a regularização de posses, fixando critérios para os negócios e as relações sobre a terra.

Este ato contribuiu para evitar as especulações e grilagens, para estimular as relações de trabalho, com o surgimento das figuras do proprietário, do arrendatário, do meeiro, do empreiteiro e do colonato. Eliminaram-se assim os conflitos de posseiros que expulsavam os índios e a indústria da posse.

As Comissões de Demarcação nomeadas pelo governo paulista adentraram o interior demarcando ou discriminando terras do Estado e terras particulares, estipulando prazo para que os ocupantes comprovassem a posse por pelo menos 5 anos, a existência de áreas de cultivo e o uso do local para moradia familiar.

Os possuidores de imóveis rurais que demonstraram o preenchimento destes requisitos se tornaram proprietários definitivos das terras, com a homologação do Governo do Estado.

As comissões que mapearam a região existente entre Bauru e São José do Rio Preto eram chefiadas pelo Engenheiro Gregório Mascarenhas. A demarcação conferiu valor de mercado às terras, mas também obrigou os proprietários ao recolhimento de impostos.

A região da Alta Araraquarense, nos territórios onde surgiriam os municípios de Votuporanga, Fernandópolis, Jales e Santa Fé do Sul, tinha muitos problemas de grilagens, terras estas encravadas entre as margens dos rios Grande, ao norte, São José dos Dourados, ao sul, e Paraná, a oeste.

Demarcadas constituíram doze fazendas e algumas glebas: Marimbondo, Ranchão, Iagora, São Pedro, Voador, Prata, Marinheiro, Pádua Diniz, Água Vermelha, Santa Rita e Ponte Pensa.

A Estrada Boiadeira cortava estas fazendas e ficou sendo a via de acesso para os sertanejos vencerem as inóspitas florestas, plantarem as cidades e povoarem a região, facilitando as relações comerciais entre Mato Grosso, São Paulo e Minas Gerais.

Na região mais próxima da margem do Rio Tietê surgiram as glebas nomeadas de Fazenda Talhados, Fazenda Carrilho e Fazenda Limoeiro

Habitação típica dos pioneiros da região Noroeste Paulista, casas de pau-a-pique abertas em meio ao extenso matagal.

Nestas imensas fazendas surgiram povoados, vilas, novas cidades e novos municípios, impulsionados pela expansão da cafeicultura, atividade econômica que, atrelada à imigração italiana, levou à expansão das estradas ferroviárias para transporte da produção.

Estrada Boiadeira do Taboado - Imagem atual, colhida por Evandro Ferreira, descendente de salgadenses residentes em Nova Castilho, turismólogo e encarregado do setor de Museus e Patrimônios Históricos de Votuporanga (SP), cujo importante levantamento sobre a Estrada do Taboado pode ser conferido AQUI, e que gentilmente contribuiu para as nossas pesquisas sobre o tema.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Memória 40 (Márcio Teixeira e João de Mello)

1975 - Márcio Teixeira da Rocha e João de Mello, dois dos mais renomados músicos salgadenses de todos os tempos. Márcio também foi destaque como professor de violão e treinador de futebol das categorias de base.
(foto: enviada por Ivone Fantini)

Casados x Descasados

Com quatorze anos de idade eu trabalhava no Cartório de Registro Civil de General Salgado, então comandado pelo Escrivão Hésio Rodrigues de Carvalho.

Seu Hésio era uma figura ímpar, um senhor com mais de 60 anos muito elegante e alinhado, cabelos grisalhos bem penteados, sapatos engraxados, guarda-chuvas no braço. Quando adentrava os corredores forenses o pessoal nem precisava vê-lo para saber de sua chegada, pois sua passagem ia sendo revelada pelo perfume que dele recendia. Por isso era carinhosamente chamado pelos colegas de Cheiroso.

O cartório funcionava aos sábados por causa dos casamentos civis que eram realizados. Como eu havia aprendido todo o funcionamento do cartório, seu Hésio (em conluio com o juiz de paz Melentino Cardoso) decidiu me ensinar a celebrar os casamentos. Escreveu o palavreado numa folha e fui eu ajudar seu Melentino.

Da primeira vez as pernas tremiam, a voz ameaçava falhar. Semanas depois eu nem precisava do papelote, tinha decorado tudo.

Por quase cinco anos ajudei a sacramentar o enlace de muitos salgadenses. Seu Melentino fazia algumas perguntas básicas sobre livre e espontânea vontade e em seguida declarava que a partir daquele instante o casal era marido e mulher. Aí entrava eu sapecando o texto decorado com o acréscimo dos dados sobre os nubentes, filiação, naturalidade, essas coisas.

A gente adorava quando o casal pedia para fazermos o casamento fora do cartório, ou seja, no local da festa, pois acabávamos pegando carona no evento. Na zona rural era mais gostoso, casamento de fazenda não acontecia sem aquela churrascada.

Ao final de cada casamento, depois que os noivos e os padrinhos assinavam o termo, seu Melentino entregava a certidão de casamento e repetia os votos de felicidades, no final acrescentava uns conselhos:

- Juízo, meus filhos!

Um casal de sitiantes de Nova Palmira, convivendo há mais de quarenta anos resolveu regularizar a situação dos filhos com o casamento civil. Os dois tinham ultrapassado os 60 e, ao final da cerimônia o juiz de paz nem se deu conta. Repetiu o mesmo palavreado, recomendando juízo aos contraentes.

Seu Melentino conta que há muitos anos, no tempo em que o sujeito era obrigado a casar para salvar a honra da moça desvirginada, um pai prestou queixa na Polícia dizendo que a filha havia sido desonrada e o autor do fato se negava ao casamento.

Forçado pelo Delegado de Polícia o cidadão não teve outra saída, aceitou o matrimônio. Para impedir alguma surpresa o delegado determinou a um Sargento que acompanhasse a cerimônia. Na hora do casamento o juiz de paz perguntou ao noivo se ele aceitava a noiva, e se o fazia espontaneamente. O rapaz coçou a cabeça, olhou para o lado e se assustou com a cara séria do miliciano. O jeito foi concordar:

- Já que é assim que o Sargento quer, eu aceito!

Anos depois, como advogado, me vi atuando do outro lado da situação. Ao invés de sacramentar a união dos casais passei a formalizar suas separações.

Talvez por conta do fato de ter vivido aquela experiência, convivido por muito tempo com a felicidade que os casais demonstram na hora do casamento, não sei atender a um casal que pretende se separar sem fazer uma – ainda que pequena – tentativa de reconciliá-los. Mesmo que o sucesso da empreitada, no caso, possa redundar em deixar de fazer o serviço e conseqüentemente não receber honorários.

Em mais de vinte anos de advocacia tive a oportunidade de divorciar até mesmo casais que eu, ainda garoto de tudo, havia ajudado a casar ao lado de seu Melentino.

Depois que a Constituição Federal passou a considerar a união estável como entidade familiar, voltei a unir casais através de ações que visam o reconhecimento da convivência e a preservação de direitos. Atualmente está em moda o contrato de namoro, pessoas divorciadas e proprietárias de bens, que começam a namorar outras na mesma situação buscam precaução através desses contratos, a fim de que o namoro não seja confundido com a união estável. Para isso solicitam a lavratura de um pacto dizendo que a união é um simples namoro e que, ao final dela, ninguém ficará devendo nada para ninguém.

Eu acredito na união das pessoas independentemente das formalidades. Depende do que elas esperam da união, pois, a forma com que foi sacramentada não é capaz de tornar a convivência mais ou menos sólida.

São outros os fatores responsáveis pela segurança ou pela fragilidade do relacionamento, dentre eles o respeito, a consideração, a amizade, o companheirismo e, logicamente, o amor. Enfim, acredito que o casamento (ou a convivência marital) é um estado de espírito.

Mas quando o casal resolve se separar a grande maioria dá mostras claras de que perdeu tudo isso, foi-se o respeito, a consideração, e os dois brigam até por causa de panela.

Conheço um salgadense casado há muitos anos com a mesma mulher, filhos adultos, que diz ter atravessado algumas crises de relacionamento com a esposa, chegando a falar em separação.

Apesar dos desentendimentos o casal se mostrava pacífico, mantendo, pelo menos, a amizade e a consideração. O marido disse à mulher que caso a decisão fosse pela separação ele sairia de casa, ela ficaria com os filhos, os móveis, a casa, ele pagaria a pensão e visitaria os filhos na medida do possível. Fez uma única restrição:

- Eu só quero o nosso colchão! Você pode ficar com o todo o resto. Eu só quero colocar o colchão no meio da rua e botar fogo!

A mulher não entendeu nada. Para quê o marido pretendia levar de casa apenas um velho colchão. Insistiu até que ele se explicou:

- A gente vai se separar, você vai tocar sua vida e eu a minha. Daqui a algum tempo você se casa de novo, eu não me oponho, tudo fica bem! Eu só não quero saber de outro sujeito fazendo festa em cima do meu colchão!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Memória 39 (João Berto)


João Norberto e Benta Faria Marques - filho do pioneiro Norberto Luiz Marques. O casal teve cinco filhos: Alcino (casou-se com Elvani Franco), Arcilio (Odete Rosa), José João (Maria Neves), Dalira (Elson Mian) e Elena (João Cândido Pereira).
(foto: Álbum da Família Marques)

Carta Aberta a Um Amigo Salgadense

Chapadão do Sul (MS), maio de 2002.

Estimado amigo,

Tenho revolvido com afinco um velho baú de guardados a fim de contar neste canto aqui na grande rede, um pouco de tudo o que vi, vivi e conheci da nossa querida General Salgado.

Lembrei-me de algumas coisas que se passaram na minha infância em Nova Castilho, dos amigos que fiz quando me mudei para a sede do município, do nosso grupo de adolescentes, das peladas pelos campinhos esburacados, escolas e professores, serenatas e noites de cantoria.

Em todas as vezes que remexia o interior do baú de recordações para buscar um fato, uma história, um personagem, por entre os guardados eu te via, sentia tua presença e tua importância em minha vida, sabendo que um dia eu teria que falar de ti. Em cada uma destas oportunidades em que vislumbrei tua presença ali em meio às minhas melhores lembranças, me certifiquei – com vívida satisfação - que ainda guardo por ti o mesmo respeito, o mesmo carinho e uma admiração perene.

Sei que tudo o que devo, quero e tenho que te dizer, poderia ter sido dito há muito tempo atrás. Mas o tempo - Ah! o tempo - vive nos espremendo, nos compelindo, adiando, postergando encontros, visitas, abraços, conversas, confissões, ao mesmo tempo em que nos vai mitigando o entusiasmo daqueles tempos em que a juventude a tudo comandava, incentivava, incitava.

Hoje eu te compreendo, velho amigo, e sei que você nos contou uma história fantasiosa, fazendo com que acreditássemos que ia nos fazer jogadores de futebol. Mas os teus planos, o teu intento e a tua missão estavam muito distantes disso. Você não queria que jogássemos futebol, apenas nos fez acreditar nisso.

E nós acreditamos em ti com a fé da adolescência, com a certeza de quem tem toda uma vida pela frente, a confiança de quem não teme os erros, as vicissitudes, as incertezas, e até mesmo, as inconseqüências.

Pulávamos das camas às 5 da matina para ir treinar lá no velho estádio Paulo Possetti. Alguns, como eu, depois de correr duas horas inteiras – parte delas dedicadas à educação física – mesmo nas manhãs de inverno, às 8 em ponto pegavam no batente. Havia dias em que retornávamos às 5 da tarde para repetir toda a faina.

Tanto acreditamos em ti que entrávamos em campo e lutávamos com denodo para defender o grupo e nome da cidade. E não foram poucas as vitórias, não eram insignificantes os adversários e muitas foram as vezes em que voltamos para casa mostrando nossa felicidade pelas ruas da cidade, gritando a plenos pulmões o placar do jogo para aqueles que nos aguardavam. Na nossa crença juvenil não fomos capazes de perceber que os teus planos a nosso respeito eram outros.

Há uma cena entre nós que precisa ser revivida. Voltávamos de um jogo nas cercanias, o velho Tartarugão balançava pela rodovia e alguns amigos começaram a tocar a campainha do ônibus, puxando o fio que os passageiros normalmente usam para pedir parada. Você, como sempre, deu as primeiras broncas sem identificar o autor da travessura.

Não sei por que motivo, já que eu nunca fui de quebrar a disciplina do grupo, resolvi entrar na brincadeira e puxar o cordão, aproveitando um momento de tua distração. Você insistiu na repreensão e me perguntou sério: “Quem foi?”. Naquele instante, sem resistir ao teu olhar inquisitivo eu me acusei. Não fui capaz de ocultar de ti a traquinice e esperei o merecido castigo.

Mas por detrás do teu olhar de repreensão você deixou aparecer um sorriso denunciando nossa proximidade, nossa cumplicidade. O teu sorriso foi capaz de premiar a minha sinceridade e ao mesmo tempo punir a minha impertinência.

Sinto dizer, meu amigo, que os teus planos futebolísticos redundaram em fracasso. Ninguém daquele time alcançou o estrelato com a bola nos pés, ninguém envergou outra camisa senão aquela azul e branca do nosso Grêmio Desportivo Salgadense. E nós, num arroubo de egoísmo, acabamos creditando a você o nosso insucesso. Num repente passamos a crer que teus métodos não estavam aptos a conduzir nossos planos de profissionalização e estrelato.

E por conta da nossa crença estúpida e insensata, própria dos açodados, dos despreparados, dos que acreditam que tudo sabem, que tudo podem, acabamos te magoando. A minha larga parcela de responsabilidade, sabe você, assumi na tua presença, do mesmo modo como me denunciei no dia em que toquei aquela campainha. Era o mínimo que eu poderia fazer naquele tempo, apesar de não ter bastado para me eximir, para expiar minha equivocada e culposa posição.

Hoje venho te pedir perdão. Desculpe-me o atraso de “apenas” vinte anos, mas ainda que fossem quarenta eu teria que fazê-lo. Nesses vinte anos nos encontramos algumas vezes, conversamos um pouco e posso acreditar que o tempo – que tudo supera e cicatriza – tenha sedimentado o turbilhão de sentimentos que te atingiu. Muitas foram as vezes em que busquei com os velhos amigos notícias tuas, e creias, saber-te bem sempre me serviu de acalento ao coração.

Como fomos inocentes meu amigo! Como nos deixamos iludir! Confiamos cegamente que você nos queria craques de bola, e não fomos capazes de perceber que o que você realmente pretendia era nos transformar em homens!

E você não se poupou de oportunidades, não economizou entusiasmo, seja nas vezes em que deixou o convívio dos teus para nos acompanhar; nas vezes em que tirou dinheiro do bolso para socorrer aqueles mais necessitados; nas vezes em que sacrificou o horário do teu trabalho diário em nosso benefício; nas vezes em que, para reunir o grupo, fortalecer amizades e companheirismo, varamos noites em longas conversas de esclarecimento e orientação, você sempre nos oferecendo teu ombro amigo, tua experiência de vida, teus ouvidos plenos de compreensão. Com muitos, você ainda dividia o aconchego da tua casa, a comida da tua mesa, a compreensão de tua família, a alegria do teu violão.

Em todas essas oportunidades você jamais demonstrou cansaço, incompreensão, jamais deixou de dar socorro às nossas inquietações. Em contrapartida nos cobrava apenas comportamento, atitude, disciplina, personalidade, tentando harmonizar nossa convivência em grupo e ao mesmo tempo fortalecer nossas vidas em família.

Nossos pais sempre foram e sempre serão para nós referências básicas, jamais esqueceremos, jamais desprezaremos tudo o que deles recebemos, tudo o que com eles aprendemos. Mas houve vezes em que eles não estavam por perto, houve vezes em que eles eram os motivos das nossas inquietações, houve vezes em que não tivemos coragem, oportunidade ou liberdade suficiente para nos abrirmos com eles. Nessas horas, amigo, você estava conosco e nunca negou uma palavra amiga, um conselho, um conforto, uma orientação. Nunca deixou de nos ouvir e de dar sua contribuição para o nosso crescimento, para o nosso amadurecimento.

Cá comigo creio que carregas íntima convicção do quanto foi grande e importante o resultado do teu intento. Ouso acreditar piamente que tens consciência de que tua missão se preencheu de êxito, de sucesso e de concretização. Ainda assim vou te dar alguns exemplos:

- aquele goleiro metido a elegante, que fazia questão de comprar – a duras penas – seu próprio uniforme, mas que negaceava quando era necessário contribuir para o time, mais por dificuldades financeiras do que por sovinice, hoje é um homem assentado na vida. Superou obstáculos, constituiu família, alcançou o respeito de seus pares;

- aquele centroavante cabeçudo que às vezes treinava com os pés descalços porque não tinha dinheiro para comprar chuteiras, hoje é próspero empresário, cresceu na vida honestamente, com trabalho árduo e honrado; é motivo de orgulho para todos nós que conhecemos das dificuldades que enfrentou, que partilhamos com ele alegrias, tristezas e esperanças;

- um outro atacante polivalente que de vez em quando vestia a camisa de titular, aquele, que sempre dava show jogando pelos aspirantes, hoje é homem feito, tem família, filhos, e quando deixa o Estado onde vive para vir visitar os amigos e familiares salgadenses, e por aqui desfila ao volante de um carrão reluzente, nós que sabemos o quanto foi dura a sua caminhada sentimos que a vida sabe premiar os que lutam, os que buscam trilhar o caminho dos justos.

Eu poderia falar de todos os demais companheiros e em todos eles há um motivo de orgulho, uma vitória a ser anunciada, um caminho trilhado com dedicação e premiado de êxito. Alguns talvez não tenham alcançado plena independência financeira, mas te garanto que todos se tornaram homens de bem.

Tenha certeza, meu amigo, que em todos eles influenciou positivamente a tua palavra sincera e cordata, teu apoio, tua orientação mesmo que em forma de censura, e ainda que você nos tenha vendido a ilusão de que estavas mais preocupado com o nosso futebol. Não há um de nós que não te guarde carinho e consideração, que não se sinta agradecido. Ninguém jamais esquecerá o que fizestes.

Por tudo isso é preciso te dizer muito obrigado, amigo Márcio Teixeira da Rocha, e o faço aqui com redobrada saudade e renovada esperança de que tenhamos ainda um dia oportunidade de reviver e revolver aqueles dias de aprendizado, de amizade e crescimento, em que você nos doou grande parte do seu coração imenso, justo, caloroso e fraterno.

Tenha certeza que você colherá os merecidos frutos do que plantou, se é que isso ainda não aconteceu. Eu ficaria muito feliz se soubesse que as gerações que nos sucederam tiveram (ou terão) as mesmas oportunidades que tivemos, de pelo menos, conviver e aprender sobre a vida com uma pessoa como você.

Jamais deixarás de ocupar um lugar especial no meu baú de guardados, esse baú que trago seguro e preservado aqui dentro do peito.

Dê lembranças minhas à Sueli e às crianças (que já não devem ser tão crianças assim!).

Que Deus te abençoe.

Um forte abraço do eternamente agradecido amigo Carlos José.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Memória 38 (Escolinha da Faz. Marques)

Escolinha da Fazenda Marques - 10 de janeiro de 1946
Em 1937 o pioneiro José Pereira da Silva (conhecido como Zé Rafael) alugou sua casa na cidade para a instalação da primeira escola, e mudou-se para a Fazenda Marques, onde instalou uma escolinha para as crianças da fazenda.
Em pé: Luiz Marques Neto, Idir Pereira da Silva, Diomásio José Marques, Luiz José Marques, Zé Rafael, Manoelina Marques, Geraldina Marques e Idetildes Pereira da Silva.
Sentados: Genésio Marques, Antonio (filho adotivo de Pedro Marques), Milton Marques, Ivo Pereira da Silva, Idevaldo Pereira da Silva, Valdemar Marques, Mário Marques, Alvina Marques, Adélia Josina Marques e Alzira Marques.
Em 1947 José Rafael foi eleito vereador na primeira eleição do município.
Auxiliaram na identificação dos retratados: Alzira e Valdemar Marques.
(foto: Acervo da Família Marques)

Futebolísticas

Seu Domingos de Almeida foi zagueiro de respeito defendendo alguns times da região do Córrego do Lajeado. Ao seu lado jogavam outros de seus irmãos: os laterais Agostinho e Azenclever e o meio-campista Ademázio.

Os “filhos do seu Álvaro” como eram conhecidos, vestiram os uniformes de vários times das cercanias: Major Prado, Nova Palmira, Fazenda Almeida Prado, e outros. Fui capaz de vê-lo jogando – já quase veterano – pelo time de Nova Castilho, ao lado de outros craques do local em fase final de carreira: Gumercindo Pereira, Miro Carapina, Caracu e outros.

À medida que foi encerrando a carreira de boleiro papai foi passando a ajudar na administração dos times e organização dos jogos. Era comum aos times dos distritos convidarem jogadores da cidade para reforçar seus elencos.

Foi assim que, ainda vivendo em Nova Castilho fiquei conhecendo de perto os craques salgadenses da época, que de vez em quando vestiam o uniforme do esquadrão castilhense.

Por uma incrível coincidência, os principais atletas formavam grupos familiares de irmãos: os Mendonça (Banana, Mick e Vande), os Prado (Edmar e Gilmar), e os Gasques (Camisada e Tiquinho). Estes eram os que mais comumente reforçavam a equipe castilhense.

Cresci ouvindo os mais velhos tecendo loas sobre os antigos craques da cidade. Nos anos 50 o time tinha uma defesa muito sólida, formada pelo goleiro Tanabi, o jovem lateral Zé Afonso, Cido Prado, Rolinha, Joaquim Fernandes.

No meio de campo Arnaldo Regula (cunhado dos irmãos Bernabé) era o craque da época, tinha um estilo elegante e apurado. Ao seu lado brilharam os meio-campistas Ieron Ribeiro, Fiúla, Paschoal Pompílio e os atacantes Ramonzinho, Paraguai e Caxambu.

Mais adiante, nos anos 60, começou a aparecer para a torcida o futebol vistoso de Piau Rodrigues, que formava a meia-cancha do time com Zé Frota e Tica. A defesa tinha Dega, Orlando Prestes e Zé Afonso. No ataque, Amilton e o jovem Caruaru ao lado do infernal Caxambu.

Nos anos 70 surgiu a geração que eu vi jogar, com os goleiros Italianinho e Val (irmão do Tião Pelé), e os meio-campistas Banana, Edmar e Gilmar Prado, Amauri Cruzeiro e Poloni.

Os mais antigos dizem que Caxambu e Piau foram os melhores dentre todos os atletas que envergaram a camisa salgadense. Não os vi jogar, mas imagino que se eles foram melhores que Poloni é porque jogavam muito.

Chamava-se Laurício, era um policial militar que veio da vizinha cidade de Poloni e, por isso ficou assim conhecido. Camisa 10 típico, clássico, de passadas largas, ótimo domínio de bola e dribles desconcertantes. Seu futebol enchia os olhos da torcida.

Nessas três décadas a direção da equipe passou por vários treinadores, dentre eles: Perez, Cri, João Longhini, Durval Saxoni, Zé Afonso, Tião Pelé, Márcio Teixeira da Rocha, este último dando preferência à garotada.

Os dirigentes eram dedicados torcedores que colocavam seus veículos à disposição para o transporte dos atletas pela região. Um dos mais abnegados, que fornecia transporte e chegava a pagar as despesas da equipe do próprio bolso era Luiz Zoccal.

Os times salgadenses sempre foram respeitados na região talvez porque os treinadores aproveitassem jogadores dos diversos bairros rurais. O Dr. Orides Boiati, membro do Ministério Público paulista, moleque crescido no Córrego do Gabriel, conta que o time do bairro era praticamente imbatível nos duelos que travava com os vizinhos: Colônia Braga, Água Vermelha, Ouro Branco, Macaúba Velha (como era conhecido o distrito de Vicentinópolis), Olaria da Paula, Generoso, Nova Palmira, Nova Castilho. Vários jogadores que brilharam no escrete principal do Salgadense saíram dos times de bairros.

Outro atento leitor desta nossa prosa pela Internet, o salgadense e hoje paulistano Aparecido Rubens da Silva (o famoso boleiro Chapa, muito conhecido lá pelas bandas da Vila Minhoca como Cidinho do Saad), conta que por volta de 1966, um dos grandes clássicos interbairros era o embate entre Nova Palmira (a famosa Vila Minhoca) e a Fazenda Zocal.

Um dos jogos mais marcantes foi o que festejou a inauguração do campo da fazenda. No sábado a turma se reuniu para preparar o campo, aparar o gramado, deixar tudo nos trinques. De repente surgiu um problema: no meio do campo havia um enorme cupinzeiro, daqueles que só se arranca com trator, e a única máquina existente na fazenda estava no conserto. A solução foi realizar a partida com o imenso tacuru na meia-cancha.

Parece que o jogo terminou sem abertura de contagem, mas a grande sensação do dia foi o show que os craques (Quica, Zé Afonso e o goleiro Marião entre eles) tiveram que dar driblando os adversários e também o murundu.

Quando mudamos para a cidade, no início de 1976, seu Domingos passou a acompanhar de perto o time que representava a sede do município, então chamado de Flamengo e comandado por Durval Saxoni com o auxílio do veterano lateral direito Zé Afonso, que ainda corria atrás da pelota.

O time não tinha meio de transporte e se locomovia até as cidades vizinhas em diversos carros colocados à disposição pelos torcedores mais fanáticos (Domingos de Almeida, Anésio Arruda, Zezinho Fernandes, entre outros).

Era comum no domingo logo depois do almoço encontrar os automóveis estacionados defronte a Prefeitura Municipal aguardando os jogadores. Era uma das minhas diversões de criança acompanhar os jogos nas cidades vizinhas.

Ainda guardo na lembrança um domingo chuvoso em que o time se reuniu para ir enfrentar o escrete da vizinha Poloni, um dos adversários mais temíveis. Nosso carro foi o último a chegar lá, quando o time já estava nos vestiários. Havia um problema grave, por conta da chuva alguns jogadores acharam que o jogo não aconteceria e não apareceram. O técnico Zé Afonso contou os presentes: nove incluindo dois goleiros, Italianinho e Márcio Aurélio Cruzeiro.

O jeito era improvisar e por incrível que pareça deu-se um jeito: o treinador Zé Afonso se escalou numa lateral, botou o goleiro reserva Márcio Aurélio noutra ala e arrumou chuteiras para o torcedor Domingos de Almeida, improvisado na ponta-esquerda.

Nunca esqueci a escalação do timaço: Italianinho, Zé Afonso, Grilão, Gilmar Prado e Márcio Aurélio; Banana, Edmar Prado e Amauri Cruzeiro; Vande Mendonça, Caruaru e Domingos de Almeida. Vencemos por 2x0, gols de Edmar e Vande.

A re-inauguração do Estádio Paulo Posseti aconteceu no mesmo ano de 1976 e íamos assistir aos treinos na maior expectativa para o grande jogo da estréia. O time era muito bom, não sei como alguns craques daquela época não deram certo em times profissionais, apesar de alguns terem tentado.

O time-base: Italianinho, Saponga, Ilsinho Pissioli, Banana e Cabo Onório; Gilmar Prado, Edmar Prado e Poloni; Chocolate, Caruaru e Tiquinho. Na reserva: Val, Grilão, Zé Afonso, Oscar Garbatti, Amauri Cruzeiro, Mick e Vande Mendonça, Camisada, Cela, Márcio. Apesar da festa o time perdeu para um grande time da região, se não me falha a memória o Fernandópolis (o famoso Fefecê) que disputava uma das divisões de base do campeonato paulista.

Nos anos 80 surgiu a minha geração, outra leva de craques salgadenses. Muitas outras surgiram depois e assim continuará acontecendo. Do nosso grupo, formado ainda na faixa dos 12 a 14 anos pelo incansável Márcio Teixeira da Rocha, auxiliado por Zezinho Soldado e pelo dentista Josafá Barcelos, também despontaram bons valores. Dentre eles um baixinho enfezado e atrevido com a bola nos pés que acabou se tornando o mais conhecido salgadense no futebol profissional: meu xará Carlos José de Oliveira, o Negão, que fez sucesso no América rio-pretense.

Finalizo com uma historinha futebolística daqueles bons tempos. Os irmãos Edmar e Gilmar Prado desde cedo mostraram grandes dotes para o futebol. Ainda moleques eram requisitados pelos times dos bairros rurais.

Certa feita Edmar foi convidado para jogar pelo time dos Tamborlin, no Bairro da Água Vermelha, nas proximidades de Nova Castilho, outro conhecido reduto de famílias italianas: Tamborlin, Bonetto, Marchiafave, Colombo e Borghetti dentre outras.

Edmar apresentou ao dono do time, o Sr. Tranqüilo Tamborlin, o irmão mais novo como sendo um craque. O italiano olhou para o menino Gilmar – que já era baixinho – e não acreditou que aquele frangote poderia jogar futebol entre os mais velhos. Mas, acreditando na palavra do irmão mais velho, deu-lhe a camisa 10, para que formassem a dupla de ataque do time da casa.

O juiz comandou a saída do jogo, os dois irmãos saíram tocando a bola e engatilharam uma tabelinha, aproveitando o grande entrosamento que possuíam.

Em meia dúzia de toques chegaram à cara do gol e sem que o adversário sequer tocasse na bola Gilmar inaugurou o placar. A torcida delirou e durante a comemoração do gol os jogadores perceberam que o dono do time saíra correndo para os lados da casa, pois o campo dos Tamborlin era praticamente no quintal.

O jogo foi adiante com a dupla infernizando a defesa adversária, protagonizando uma sonora goleada. Na margem do gramado o velho Tamborlin exultava e pulava a cada jogada dos dois jovens. Ao término do embate o italiano procurou os irmãos para agradecer e elogiar o pequenino Gilmar que havia arrebentado com o jogo.

Não se conteve ao narrar a cena que viveu com o primeiro gol do time, explicando com seu forte sotaque:

- Rapazinho, quando você saiu tabelando e fez o primeiro golo eu não me agüentei. Me caguei tudo nas carça...

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Memória 37 (Vista aérea 1953)

Vista aérea de Gen. Salgado - 09 de setembro de 1953
(clique sobre a foto para ampliar)

Foto obtida pelo Coronel Aviador André Marques, filho do pioneiro Hipólito Ludgero Marques.

1 - Estrada Estadual (atual Rodovia Feliciano S. Cunha)
2 - Atual bairro Vila Maria (onde está a Praça 101)
3 - Esquina das Ruas Diogo Garcia x Leoncio C. Viana
4 - Esquina das Ruas Antonino J. Carvalho x Dr. Bruno Martins
5 - Esquina das Ruas João Garcia x José Desidério, nessa quadra vê-se a primeira escola da cidade, onde hoje existe o Clube de Regatas Salgadense.
6 - Esquina das Ruas Plinio R. do Val x Nadir Garcia
7 - Praça N. Sra. das Dores
8 - Posto de Antonio Bernabé (esquina das Ruas Euflauzino Castilho x Antonino)
9 - Estrada Municipal (atual Avenida Orlando Prestes)
10 - Terreno onde hoje existe a Escola Angelo Scarin
(foto: Coronel André Marques, enviada por Miltinho Castilho)

terça-feira, 22 de abril de 2008

Memória 36 (EE T. Barão - Anos 1970)

EE Tonico Barão - Anos 70
Mais uma foto com ex-alunos: Zé Luiz Desidério, Maria, Picinha Giamatei, Profa. Lúcia Secches, Rose Prado, Godê Giamatei, Nice Perez de Oliveira e Edna de Souza.
Agradecimento aos que colaboraram para a identificação: Ivani Cabrera, Pedrinho Giamatei e José Luiz Desidério Fernandes.
Atualização em 05/07/2010 - Zé Luiz Desidério enviou um email para dizer que o antepenúltimo não é o Godê Giamatei, e sim, Darci Guerra Andretto.
(foto: Acervo do Cinquentenário da EE Tonico Barão)

Meu Violão em Seresta

No ano 2000 as estatísticas oficiais diziam que o município de Nova Castilho, criado em 1997, tinha 991 habitantes. Fundado entre 1910 e 1915 e inicialmente chamado de Japiúba, foi em 1948 que o vilarejo recebeu o nome que homenageia com justiça a família Castilho, doadora das terras onde se instalou o arruado.

Tenho absoluta certeza que no início dos anos 70 a população do local era imensamente superior, possivelmente o dobro. A cidadezinha fervia de gente, era imenso o número de pessoas que residia nas mais de duzentas propriedades rurais existentes na área do município.

Os espetáculos eventuais, como circos, touradas, quermesses e festas religiosas eram freqüentados pela grande maioria da população, e nestas ocasiões as famílias se reuniam num congraçamento festivo.

Os grandes feriados como Natal e Ano Novo também eram motivos para grandes reuniões, com a turma indo de casa em casa obrigando os moradores a fazerem parte do cordão. Numa das comemorações de Ano Novo, me lembro que o Sr. Raniel Aleixo puxava a fila do grupo pelas ruas da cidade batucando no fundo de uma grande bacia de alumínio, cantando e intimando os transeuntes para que entrassem no bloco. No pescoço levava um comprido fio de barbante que trazia atado na ponta um pescoço de frango assado.

As crianças (eu entre elas) eram colocadas mais cedo na cama para que os pais pudessem festejar e uma das diversões prediletas eram as serenatas. A casa do Professor Paulo Camargo era das preferidas e ele costumava convidar alguns artistas da cidade para o evento.

Por conta destes encontros fiquei conhecendo alguns músicos salgadenses: Márcio Teixeira, Odair e Marão (que anos depois se tornariam Romano e Romeu), Fio, João e Natal de Melo (hoje conhecidos como Divaney e Deni-Rey). Não é preciso dizer que o violão me fascinou desde o primeiro instante.

Quando a presença dos músicos era impossível a turma improvisava: armava uma mini-vitrola movida a pilha na janela do visitado e soltava um pequeno compacto de vinil. A primeira música era oficial: João de Barro. Os visitantes se espremiam nos corredores ou alpendres das casas e se esgoelavam para acompanhar Sérgio Reis: “o João de Barro / pra ser feliz como eu / certo dia resolveu / arranjar uma companheira...”.

De vez em quando um menos avisado empurrava outro lá atrás e o efeito acabava prejudicando o desempenho do pequeno aparelho. A velocidade da música diminuía, o cantor desafinava, a agulha corria pulando trechos da música. Mas nada disso era capaz de atrapalhar a animação. Em questão de minutos os donos da casa abriam as portas da morada e da geladeira para receber os convivas e o festejo se aprofundava na madrugada.

Mudamos para a cidade e o animado grupo de castilhenses foi se esfacelando, outros também tomaram novos rumos. Enturmado com os citadinos, um dia alguém me convidou para participar de uma serenata, alguns amigos queriam homenagear uma salgadense que aparecia de vez em quando na cidade e nestas oportunidades desbaratava o coração dos adolescentes salgadenses. A família se hospedava no Hotel São Joaquim.

A homenageada recebeu a cantoria com certa indiferença, por timidez ou por não ter apreciado o intento dos admiradores não deu o ar da graça. Por uma incrível coincidência, vinte anos depois a reencontrei em Chapadão do Sul (MS), casada com o então prefeito do município. Seu nome: Maria das Dores Zoccal.

Nossa turma gostou tanto da aventura que decidiu promover serestas quase todo final de semana. O fato de ninguém saber tocar violão não foi empecilho, arrumamos um toca-fitas portátil. Avisávamos antes as moças para não assustar os familiares e nem errar de janela. Alguém tinha que ficar segurando o gravador no rumo da janela, enquanto isso os demais tentavam fazer silêncio.

Não foi possível evitar que alguns pais se assustassem com a brincadeira, principalmente porque a turma não conseguia manter silêncio durante todo o tempo. Numa das vezes em que a visita homenageava Regina Cervantes, o grupo de amigos se reuniu no quintal da casa, defronte à janela. De repente olhamos para o lado e nos deparamos com o seu Chico Cervantes, pai da moça, do nosso lado, verificando de perto a identidade dos barulhentos. A sorte é que ele conhecia todo mundo e relevou a algazarra.

De outra vez cometemos o erro de concordar que uns dois ou três mais avançados na cachaça fizessem parte do grupo; foi a maior besteira. Os bêbados não se aquietavam e acabamos passando vergonha na casa da amiga Milene Bertochi, pois os exaltados começaram a chamar seu Miguel de sogro assim que ele pôs a cara na porta da frente para conferir a presença dos farristas.

Da vez seguinte, quando tentamos impedir que os alcoolizados participassem foi pior. Emburrado e dizendo que a partir de então faria suas serenatas por conta própria, João Duran liderou um pequeno grupo dissidente, armou-se de um rádio AM e invadiu o alpendre da casa de Angélica Castilho. Sintonizou uma emissora, aumentou o volume e aproximou o aparelho da janela. Quando a música terminou, ele tentou localizar outra, e na correria achou um daqueles noticiários da madrugada:

- A Rádio Nacional de Cuba informou hoje que o Presidente Fidel Castro...

Decidi que o melhor era aprender a tocar violão. Tomei umas poucas aulas com o amigo Márcio Teixeira, comprei um instrumento à prestação nas Pernambucanas e passei a treinar diariamente. Aprendi umas duas ou três músicas e achei que já dava para o gasto. Avisei a turma e saímos na noite para a primeira aventura.

Ao saber da proposta a amiga Cláudia Cunha avisou que, se fosse a primeira homenageada nos presentearia com um litro de uísque. Para tornar mais emocionante a nossa estréia, convidou algumas amigas para dormir na casa dela. Se não me engano as amigas eram: Eliana Marques e Ângela Cavenage.

Assim que começamos a primeira música ela abriu a janela e passou o litrão de Old Eigth. A gente só sabia três músicas, mas achamos que ia ficar muito chato cantar as três e sair dali levando o litro. Então repetimos umas três vezes cada música. Lá pelas tantas percebi que o som do violão não estava bom e então descobri que enquanto a gente cantava o Mineirinho (Osvaldo Marques Junior) ia distorcendo as cordas. No escuro do corredor da casa do Zé Frota, ninguém percebeu e só quando a afinação desandou de vez foi que notamos a travessura.

Depois que o litrão foi devidamente esvaziado arriscamos entrar noutra casa, corredor apertado, fila indiana, eu puxando na guia e alguém deu um empurrão lá atrás. Quase perco o violão novo em folha, sobre o qual desabamos.

Houve vezes em que o pessoal da casa abria as portas e nos recebia. De vez em quando a gente errava a janela e o pai da moça abria uma fresta para dizer, com cara de sono: “é na janela do outro lado!”.

Algumas janelas se tornaram cativas e passaram a ser locais onde a gente não podia deixar de aparecer, porque as moradoras apreciavam a cantoria. Pelo menos era o que elas diziam: Fabíola Belletti, Uta Garcia, Claudia Cunha, Angélica Sbroggio, Maria Adélia Sirotto, Vânia Mendonça, Ângela Cavenage, Potô Chaves, Alessandra Mendonça, Cristiane Neves, Cláudia Oliveira.

De vez em quando a gente arriscava sair pela zona rural e visitava as casas das primas Eliana, Cleone e Neiva Marques.

Em muitas dessas noites de andança e cantoria aconteceram trapalhadas. Uma noite cantávamos na janela de Uta Garcia e ia passando pela rua outra turma, liderada por Lúcio Fernandes. Sem que percebêssemos acenderam uma bomba, dessas de festa junina, e soltaram no quintal da casa. No meio da música a bomba explodiu, saiu todo mundo correndo e, acho que o Dr. Ayres até hoje acredita que fomos nós quem acordamos todos da casa.

Para chegar à janela da Fabíola Belletti tínhamos que entrar no portão frontal, dar a volta nos fundos da casa e retornar pelo corredor do lado contrário. O caminho era comprido e o Gappa, para atalhar, costumava pular o muro no canto dos fundos. Em seguida ficava dentro do quintal aguardando a chegada do resto da turma.

Ficamos algum tempo sem aparecer por lá e ninguém nos avisou que o Zé Belletti fizera algumas reformas. No dia em que resolvemos voltar ao local, lá foi o Gappa pegar o atalho no cantinho do muro dos fundos. Subiu no muro e pulou para o quintal, no escuro. Caiu dentro da piscina que o Belletti havia mandado construir.

Mas a pior de todas foi protagonizada pelo meu primo Alcir Marques, o Cilinho. Começou a namorar uma garota salgadense e, não sei por que motivo, o pai da moça não gostou da história, ficou botando empecilhos. Um dia ele nos convidou pra fazer serenata na casa da namorada.

Altas horas da noite, depois de umas músicas românticas o pai da moça aparece no alpendre, com cara de insatisfeito. A gente já tinha tomado todas e, naquela altura do campeonato, ninguém estava mais ligando para compostura. Diante da cara feia do sogro Cilinho não titubeou e pediu uma música especial: Jorge Maravilha do Chico Buarque.

Para nossa segurança, a melhor parte da letra foi cantada já na saída do portão: “E como já dizia Jorge Maravilha prenhe de razão / mais vale uma filha na mão / do que dois pais voando / você não gosta de mim, mas sua filha gosta / ela gosta do tango, do dengo, do Mengo, domingo e de cócega / ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca / você não gosta de mim, mas sua filha gosta...”.

Foi a vingança perfeita, mas preferimos não esperar para ver a reação do pai da moça.

Ainda bem que estava escuro!

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Memória 35 (EE T. Barão - Anos 1970)


EE Tonico Barão - Anos 70
Edy Cabrera, Prof. Yassushi Yano, Profa. Márcia, Prof. Basílio Gonzales de Almeida, Profa. Sildelei Alves, Claudio Marques, Marilda Fochi, Euclides Marques, Marcelo Scarin, Prof. Lucia Secches, Marino Secches, Prof. Maria Antonia, Prof. Olavo Correia e Prof. José Bernabé.
Agradecimentos especiais aos que contribuíram para a identificação: Ivani Cabrera, Simão Marques, Miltinho Castilho e Leonço Alencar.
(foto: Acervo do Cinquentenário da EE Tonico Barão)

Na Beira do Rio

Os salgadenses adeptos da pescaria sempre tiveram várias opções para molhar a minhoca: o Córrego do Talhado, próximo a São João do Iracema, a Lagoa do Bicho, em Nova Castilho, o Ribeirão Açoita Cavalos, a Represa Municipal, os ranchos de Auriflama e Santo Antonio do Aracanguá que proliferaram depois do alagamento do Rio Tietê.

Nossa turma gostava de freqüentar algumas cachoeiras que ficaram famosas. Uma nos fundos do sítio do Sr. Anésio Arruda, outra na fazenda do Bob Pompílio, eram as preferidas. A gente chegava bem cedinho, quase madrugada, e só retornava quando o sol baixava no horizonte.

Num dos embalos no sítio do Pedrinho Arruda, no meio da festa o amigo Gustão Cervantes contou aos demais que recentemente havia prestado vestibular e aguardava o resultado com ansiedade. O estado etílico estava tão elevado que todo mundo entendeu ter ele sido aprovado no concurso e, na mesma hora, promoveram um trote no calouro. Quase lhe tiraram o escalpo.

Os irmãos Vande e Mick Mendonça sempre foram fanáticos por pescaria. Professor na grande São Paulo, Mick aparecia de vez em quando na cidade e nestas oportunidades fazia de tudo para levar sua turma à beira do rio. O porta-malas do seu Passat branco era o que se podia chamar de armário ambulante.

Tinha tralha de pesca completa, material de futebol (incluindo bola, chuteira, tênis, meias, caneleiras, faixas, calção...) até ferramentas para a roda-de-samba: surdo, pandeiro, tamborim, timba.

Numa manhã que sucedeu a um dia bastante chuvoso - as poças d’água ainda resistiam sob os raios da aurora radiosa - Mick reuniu outros pescadores para irem até o Barreiro, próximo a Auriflama. Dentre eles: Vande, Gilmar Prado, Valdir Cardoso, Marquinhos Secches e Acir Vieira. Levaram a tralha de pesca, alguns apetrechos de cozinha, muita cachaça, e adivinhando a fartura de peixe, sal e arroz.

Arrumaram o acampamento e partiram para a pesca. Vinha peixe de todo lado e a turma foi enchendo o embornal ao mesmo tempo em que enchia a cara, emborcando a cervejinha gelada. De tão animados se esqueceram da fome e ninguém se animava em preparar o almoço. Depois de muita discussão Vande se alistou como cozinheiro e partiu para o acampamento.

O resto da turma ficou bebericando e molhando a minhoca. De longe viam a movimentação do cozinheiro limpando os peixes, arrumando as panelas, atiçando o fogo. Depois de algum tempo um grito avisou:

- A bóia tá pronta!

Ao botarem os olhos no vistoso rango, quase não acreditaram, pois a fome cutucava forte e o aroma do peixe frito se harmonizava com o visual do arroz, temperado com massa de tomate. Em minutos todos degustavam a iguaria com avidez.

De repente alguém estrilou: a comida tinha um gosto estranho. Outro concordou: parece que tem areia!. Surgiram alguns palpites diferentes, mas a conclusão era só uma, havia algo muito estranho, o sabor não combinava com o visual da gororoba. O arroz foi praticamente deixado de lado enquanto o peixe foi todo consumido.

Então alguém se lembrou de um pequeno detalhe e inquiriu o cozinheiro:

- Vande, como é que esse arroz tá assim temperado, vermelhinho, se ninguém trouxe massa de tomate?

- Ué! É que pra cozinhar o arroz eu usei água da enxurrada!

terça-feira, 8 de abril de 2008

Memória 34 (EE Tonico Barão - 1982)

EE Tonico Barão (1982)
Ex-alunos e professores celebrando o 25º Aniversário da escola.
No alto: Dirce Trindade, Elza Castilho, Maria José Rodrigues Zoccal, Luzia Rodrigues, Felizarda Borges Guimarães, Efigênia Marques, Izaltina Marques, Neuza Garcia, Irene Belleti, Inocência Carvalho, Maria Antonia Castilho e Cida Martins.
Em pé: Pedro Joaquim de Lima, Simão Marques, Ivo Pereira da Silva, Orides Boiati, Guilherme Zoccal Filho, Norival Cabrera, Ivani Cabrera, Joaquim Castilho, Dionirce Damin, Edson de Oliveira, Wagmar Marques e Evaldo Martins.
Sentados: Yassushi Yano, Vanderlei Garcia, Prof. Miguel da Silva, Profa. Celina Guimarães da Silva, Lucia Secches e Edivaldo Rodrigues.
Contribuíram para a identificação dos retratados: Ivani Cabrera, Simão Marques e Inocência Carvalho.
(foto: Acervo do Cinquentenário da EE Tonico Barão)

Antonio Bernabé

Antiga bomba de combustíveis do Posto de Antonio Barnabé, decorando um dos trevos da Rodovia Feliciano Sales Cunha.

Num dos entroncamentos da Rodovia Feliciano Sales Cunha, aquele que acessa à Destilaria Generalco, há uma antiga bomba de gasolina utilizada como elemento decorativo.

Poucos sabem que aquela velha bomba de combustíveis por muitos anos esteve instalada no Auto Posto do seu Antonio Bernabé, o primeiro da cidade, que funcionava na esquina da Avenida Antonino de Carvalho com a Rua Euflauzino Castilho, mais ou menos onde está localizado o jardim da casa do Dr. Kleber Sales.

Conheci o velho Bernabé e pude confirmar a veracidade de muitas “artes” por ele praticadas, não economizava nas gozações, nas armações e na alegria.

Morava no sobrado ainda existente na esquina da Rua Euflauzino com a Avenida Diogo Garcia e freqüentava todas as tardes o bar de seu irmão Elizeu, o antigo Bar do Okuyama, onde hoje se acha a agência do Banco do Brasil.

Ali ele se reunia com os amigos: Milton Renda, Professor Edinei Plazza e outros que aproveitavam o fim de tarde para colocar as histórias em dia, acompanhados de diversas doses de cachaça. Só tomava uísque e tinha que ser da marca Drury’s.

Quando era proprietário do único Posto de combustíveis da cidade, logo pela manhã os comerciantes do centro se reuniam para tomar café no Bar da Rodoviária, pertencente ao Toninho Mendonça e já comandado pelo seu Lau Mendonça.

Bernabé adorava aprontar com o Sr. Orozimbo Barão, filho do fundador da cidade Tonico Barão. Seu Orozimbo – avançado nos anos – era praticamente surdo e só ouvia quando as pessoas gritavam com ele.

Encostado ao balcão tomando seu café matinal, assim que avistava o velho sentado numa das mesas do bar, Bernabé lhe exibia – à distância – a xícara de café e dizia:

- Quer tomar no cú seu Orozimbo?

Inocente e acreditando que a oferta era de um simples cafezinho, a resposta do velho provocada gargalhada de todos:

- Muito obrigado seu Bernabé, já tomei hoje!

Certa vez um fazendeiro de São José do Rio Preto, proprietário de terras em São Luiz do Japiúba, estacionou sua camionete no pátio do Posto e ficou aguardando o abastecimento.

Amarrado na caçamba do veículo havia um gordo carneiro que, certamente seria abatido e enviado às brasas nos festejos de Fim-de-Ano. Ninguém percebeu que, enquanto o fazendeiro conversava com alguns conhecidos Bernabé resolveu aprontar uma das suas artes.

O golpe só foi descoberto quando o dono do carneiro chegou em casa, foi descer o animal e tomou um susto: ao invés do ovino a corda trazia seguro pelo pescoço um enorme cachorro vira-latas que Bernabé havia apanhado no meio da rua e trocado pelo carneiro, aproveitando a distração do dono.

Lógico que para comemorar a troça ele convidou os amigos para o churrasco, especialmente aqueles que ajudaram no golpe.

Bastante avançado nos anos ainda participava das festas que os filhos (Fernando, Pote e Tita) e sobrinhos (Batata, Maninho, Márcio Aurélio e Amauri Cruzeiro) faziam no Bar do Elizeu. Chegava anunciando a todos a sua presença através de um grito forte: “Popó!”.

Lá pelas tantas, todos insistiam para que cantasse e ele até inventava umas músicas. Ficou famosa entre todos uma que começava assim: “Chora bananeira, bananeira chora...”. Parte da letra trazia, para variar, muitos palavrões e algumas rimas impublicáveis.

Mas a melhor de todas as aprontadas por seu Bernabé, até hoje considerada como a mais audaciosa, envolveu o seu cunhado Mauro Cruzeiro, casado com dona Leonor Bernabé. Esta história, com certeza, revela que ele podia perder a amizade até dos parentes, mas não perdia a piada.

Ficou muito tempo convencendo o cunhado a levá-lo até a ZBM, a famosa zona do meretrício. Mauro relutava, se dizia incapaz de trair a patroa e achava a proposta um cúmulo: “onde já se viu Antonio, nós dois na zona!”.

Tanto atentou e insistiu que o convenceu: “a gente vai lá, conversa com as moças, se diverte um pouco, depois vem embora, não vai acontecer nada demais!”.

Entraram no local, ocuparam mesa e pediram cervejas. De repente Barnabé bateu no bolso: “Mauro, esqueci o dinheiro, vou buscar”. O cunhado ainda tentou argumentar dizendo que tinha dinheiro: “Eu te convidei, então eu vou pagar a conta”, arrematou saindo porta afora.

Naquele tempo a Cantina do Papai funcionava no Posto São Paulo, na principal entrada da cidade. Bernabé entrou correndo na casa da irmã, esbaforido, muito sério:

- Leonor, vem comigo que eu vou te mostrar quem é o teu marido!

Dona Leonor não entendeu nada, mas o irmão insistia:

- Você pensa que o teu marido é um santo, mas vou te mostrar que ele não presta.

Botou a irmã no carro, tomou o rumo da zona e fez com que ela olhasse pela janela. Dona Leonor rodou a baiana quando deu de cara com o marido belo e formoso rodeado de mulheres, tomando cerveja. E o dono da armação ainda botava fogo, apontando para o cunhado com um dedo acusador:

- Não falei que o teu marido era um safado?

Enquanto o casal acertava as contas o velho Bernabé rolava de rir.

Nem é preciso dizer que ele mesmo se encarregou de espalhar a história pela cidade.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Agradecimento

Em aproximadamente três meses recebemos mais de 4.000 visitas.

Para um blog despretensioso sobre uma pequena cidade do interior paulista, é um número significativo.

Muito obrigado.

Voltem sempre.